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Itinerários crentes na cidade (2) *

3As primeiras reflexões críticas sobre os modos de vida urbanos na metrópole moderna viram na mobilidade uma das chaves essenciais para a sua compreensão. G. Simmel pensou essa mobilidade a partir da figura do estrangeiro. Não esse viajante que hoje chega para partir amanhã, mas sim esse errante que chega hoje e que ficará amanhã sem prescindir da liberdade de ir e vir. Essa mobilidade deve poder relacionar-se com essa arte de combinar crenças, essa mestiçagem dos deuses, mobilidade do imaginário que não dispensa as referências à memória religiosa em que os indivíduos foram socializados, mas as adapta àquilo que os sociólogos chamam “estilos de vida”.

N/D
9 Set 2003

Nos Estados Unidos, por exemplo, de acordo com os estudos conhecidos, é frequente que evangélicos e não evangélicos se desloquem por Igrejas diferentes até que se encontre uma “congregação” que se adeque aos seus gostos, às suas questões não resolvidas, ao seu modo de busca espiritual. Esses estudos mostram que aquilo que eles procuram não são apenas, nem em primeiro lugar, propostas acerca de uma vida futura, ou ofertas de uma moralidade construída, mas antes programas que se dirijam às suas necessidades pessoais e os orientem num estilo de vida que fortaleça o seu próprio Eu.
Este contexto permitiu o florescimento de um “mercado da espiritualidade” (livrarias, grupos de auto-ajuda, centros de retiro, medicina alternativa, seminários de espiritualidade, oficinas de espiritualidade nos negócios e nas corporações, e agora o ciber-espaço), que conduziu à reestruturação dos estilos e práticas espirituais a partir da oferta disponível. As paróquias foram envolvidas nessa imensa lógica de mercado, na medida em que são procuradas de acordo com seu estilo de acolhimento, o “ar” das suas celebrações, a competência da sua oferta de formação, o discurso dos seus padres, etc. – numa palavra, a “qualidade”. Na cidade, há paróquias que são reconhecidas pela sua extraordinária capacidade de oferta de bens religiosos ou pela competência com que o fazem, rasto de uma terciarização generalizada dos modos de vida. Nesse contexto, lança-se mão da dinâmica dos pequenos grupos para criar uma “Igreja de opções”, oferecendo um menu de respostas várias às inquietações religiosas ou às demandas de manutenção da identidade religiosa, abrindo às pessoas a possibilidade de encontrar um nicho onde possam comunicar e partilhar com os outros. O reforço e a multiplicação de diferentes regimes comunitários dentro de uma comunidade de referência (comunidade de comunidades) aproxima-se paradoxalmente de um dos sentidos do moderno individualismo religioso, uma vez que esse movimento traduz a vontade do sujeito crente se auto-implicar na economia de salvação que a instituição pretende servir, e mostra também que esse individualismo não se verte numa completa privatização do religioso. O nomadismo religioso contemporâneo corresponde à vontade de celebrar a subjectividade e o acontecimento; mas, porque a errância só é possível dentro de um quadro mínimo de referências, subsiste a nostalgia da comunidade (imaginada ou praticada).

4. As comunidades cristãs na cidade vivem, hoje, o desafio de traduzir nesse pluralismo dos modos de vida essa memória que as funda: ser assembleia convocada e reunida eucaristicamente num lugar – é isso mesmo que “igreja” significa na sua acepção primitiva. Penso que a resposta a esse desafio não deverá perder de vista que a cidade, marcada por transacções complexas, é também espaço de circulação de sentido – antes de mais, o sentido do que é viver na cidade, a urbanidade. Estão as Igrejas preparadas para serem, elas pró-prias, interlocutoras nessa descoberta do que possa ser o sentido de viver na cidade? Isto não implica uma renúncia às convições próprias com receio das etiquetas do fundamentalismo, implica sim, a meu ver, uma forma de inscrição na cena pública que aceite a disponibilidade do diálogo com outros sistemas de convicções – não há espaço público sem a construcção de compromissos. Mas implica também a abertura de “espaços públicos” dentro das Igrejas, ou seja, espaços onde aceitem ser interpeladas pelas dúvidas e hesitações dos outros, e onde elas possam dizer das suas razões. Neste contexto, as Igrejas poderão contribuir para a tradução política de algo que faz parte das suas competências e do seu património espiritual – “fazer comunhão”.




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