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ONU: de estorvo a trunfo

Nas vésperas do segundo aniversário dos atentados terroristas de 11 de Setembro, um dos aspectos que mais me chama a atenção, na cena internacional, é o voltar das atenções para o papel da ONU.

N/D
8 Set 2003

De um ponto de vista cínico, poder-se-ia dizer: «Os Estados Unidos quiseram a guerra, que arquem agora com as consequências. A potência que quis ostensivamente fazer tábua-rasa do Conselho de Segurança das Nações Unidas que pague agora a factura».
É certo que a administração Bush está metida num sarilho. No Afeganistão, onde os taliban aparentemente continuam com força; e no Iraque, onde, além da resistência contra as tropas invasoras, temos visto emergir, nos últimos tempos, sinais preocupantes da tensão entre sunitas e chiitas. Mesmo o conflito israelo-árabe, cujo desfecho tem sido apontado como dependente do controlo estratégico dos norte-americanos no Médio Oriente, não sai do ciclo mortífero da violência e da morte.

Que o terrorismo é um flagelo a combater, não haverá dúvidas. Que os Estados Unidos, uma vez atacados de forma tão brutal, tenham reagido com a agressão, poder-se-á compreender, mesmo não concordando. Mas os avisos que muitos lançaram – não apenas nos círculos mais críticos da estratégia imperialista do governo norte-americano – de que a emenda não fosse pior do que o soneto caíram em saco roto e os resultados estão à vista.

É preocupante que o governo de um país como os Estados Unidos da América tenha embarcado nesta via belicista, arrastando atrás de si indefectíveis seguidores, sem medir as consequências da opção tomada. E o que é pior: servindo-se de cenários que se foram revelando, uns atrás dos outros, meras operações de propaganda ou mesmo falsidades.

O grave disto tudo é que o modo de agir acaba por comprometer os objectivos da acção. E o que era eventualmente defensável e necessário – o combate ao terrorismo – pode acabar por produzir aquilo que procurava combater.

Por tudo isto é que me parece que a situação que os Estados Unidos criaram no Iraque deixou de ser – se alguma vez o foi – um problema deles, para passar a ser um problema de todos nós. E a solução – visando devolver o poder ao povo iraquiano – tem de passar pela assunção de um papel central (e não apenas decorativo) da ONU. Procurando esquecer o que americanos e seus aliados dela disseram, no primeiro trimestre deste ano. Por aqui se vê que não são só os pobres e pequenos países que necessitam da ONU, como observava sexta-feira, no jornal Le Monde, o secretário-geral Kofi Annan. Para algo pode ter servido o sangue de Sérgio Vieira de Mello sob os escombros de Bagdade.




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