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Itinerários crentes na cidade

Deus não habita em morada feita pela mão dos homens (Act 7, 48)

N/D
8 Set 2003

1. O momento em que vivemos é, provavelmente, aquele em que mais se complexificou a nossa relação com o território. De modos diversos, em diferentes disciplinas, fala-se do fim do tempo da territorialidade local compacta, tempo em que era possível encontrar imediatamente para cada pessoa, objecto ou acontecimento uma rede estável de significação referida a um lugar. Se perduram as relações de proximidade, as pequenas alianças do quotidia-no que criam solidariedades locais, também é certo que nunca como hoje se fez a experiência de multiplicação das pertenças (quem de nós faz hoje a experiência de pertencer a um lugar?). Dir-se-ia que o fenómeno da urbanização moderna colocou os indivíduos no contexto de uma experiência de deslocação da existência.
As culturas urbanas são, hoje, terreno de complexidade. Aí se investe na gestão daquilo que provavelmente será a qualidade mais proeminente das culturas urbanas – o pluralismo. Hoje, a cidade não transporta apenas a coexistência de tempos diferentes (as zonas históricas, os monumentos, as zonas de expansão industrial, as formas arquitectónicas mais recentes), ela exibe também uma configuração multicultural que é consequência das relações que se estabelecem entre os “nativos” e os “migrantes”, entre os antigos e os novos moradores. As culturas urbanas são ainda marcadas pela emergência do espaço público, qualidade que parece ter sofrido o impacto da expansão dos meios que levam os bens culturais e o lazer ao espaço doméstico, facto que terá reduzido a necessidade de frequentar os lugares públicos da cidade.

A essa realidade de clausura no espaço doméstico parece corresponder também a necessidade de fugir à cidade representada negativamente como o lugar da violência e da poluição (tenham-se em conta as práticas de fim-de-semana, a procura de uma segunda casa ou o imaginário nostálgico em torno das civilidades rurais).

2. As religiões devem ser vistas, entre outros ângulos, como modos de habitar o mundo. A cultura bíblica pode ser lida sob o ponto de vista da sua influência na ecologia humana, sobretudo na medida em que ela parece ter dado uma proeminência ao tempo em detrimento do espaço – Michel de Certeau falava a este propósito do “sem lugar da fé”. Isto não evitou, no entanto, que as Igrejas, na sua história, não tivessem que lidar com essa espessura humana que é o território. Sabemos como a paisagem religiosa se transformou profundamente quando começou esse enorme movimento de populações do “campo” para a “cidade”, particularmente nos séculos XIX e XX. A Igreja Católica reagiu a essas transformações em várias frentes: multiplicou as paróquias dentro da cidade, com o intuito de enquadrar numa rede de proximidade aos crentes; deu um novo impulso a outras formas de inscrição institucional no espaço, como a construção de colégios, universidades, hospitais, etc., e suas capelanias; mas também favoreceu formas de enquadramento não limitadas às bases territoriais, autorizando a constituição de redes de associativismo confessional (associações profissionais, de lazer, de intervenção social) e de movimentos, como a Acção Católica, que se adaptavam bem ao princípio de mobilidade das sociedades modernas.

Na segunda metade do século XX tornaram-se cada vez mais evidentes os efeitos de erosão dos modos de vida da metrópole urbana nas formas de socialidade religiosa marcadas pelos ritmos da comunidade camponesa. Gabriel Le Bras, sociólogo do catolicismo, escrevia em 1958: «em cada 100 rurais que se estabelecem em Paris, há perto de 90 que, mal saem da estação de Montparnasse, deixam de ser praticantes». Não admira pois que em algum discurso popular e eclesiástico tenham abundado as referências à cidade como “inimiga da fé”. Os estudos que nos anos 80 foram realizados sobre estes fenómenos glosaram frequentemente o tema do desmoronamento da “civilização paroquial”, que em traços largos seria o “fim” dessa identificação entre a paróquia como circunscrição eclesiástica e a comunidade como forma social. Recorde-se que nessa “civilização paroquial”, a igreja era o dispositivo central do território, muitas vezes um centro geográfico, mas sobretudo um centro simbólico, um emblema central da representação da identidade da população enquanto comunidade moral; a relação entre o pároco e os crentes estabelecia-se no quadro de uma proximidade espacial, proximidade que permitia o acesso fácil aos ritos, à pregação e à instrução religiosa e, assim, a manutenção de uma linhagem crente continuamente celebrada.

(Continua no DM de amanhã)




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