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Educação e cultura

É sinceramente uma aposta completa porque educação sem cultura é como uma árvore sem frutos e cultura sem educação é como uma árvore sem folhas. Aposta bem o governo mas vamos ver como aposta. As nossas reservas fundamentam-se no seguinte: as escolas de Portugal, em qualquer dos seus níveis de ensino, são escolas cultas, mas muito pouco escolas de cultura. Exemplificando:

N/D
8 Set 2003

quando um indivíduo sabe de cor e até recita coisas de outros, estamos em presença de uma pessoa culta, uma pessoa que sabe muito dos outros, sabe o que disseram vários autores, diz de cor textos inteiros, sentencia pelo que estudou, mas não tem opinião própria, porque não criou opinião que seja filha da sua reflexão. Este senhor merece o nosso respeito porque se trata de uma pessoa estudiosa, dedicada e culta; uma personalidade destinada não só a brilhar nas conferências, mas principalmente no conceito social. «É uma autoridade na matéria», costuma-se dizer e é verdade porque é boa na repetição. A pessoa de cultura não é este senhor porque às vezes nem sequer é tão letrado porque nem sequer sabe de cor tantas coisas como aquele. É alguém que sem ter o brilho social da primeira, se remete ao silêncio do seu gabinete onde se entrega ao ensimesmamento dos seus pensamentos e reflexões mas que acaba por produzir obra que o culto irá citar. Ora as escolas são, têm sido, mau grado, muito mais personalidades cultas do que personalidades de cultura. Têm produzido muito mais citadores do que criadores. A cultura escolar geralmente está subjacente em todos os programas, isto é, jaz, repousa no silêncio podre das boas intenções pedagógicas.
Este panorama é penoso e desolador porque tem formado, não homens de criação de cultura mas quadros de repetidores, de leitores e de comentaristas e intérpretes de cultura. Como actores em cena limitam-se a repetir os textos. Os professores são os zeladores do templo e como eunucos deste harém, tornam-se viciados na sua perpetuação. Por isso é que todo o aluno que se atreva a fazer doutrina, sem ordem do “mandarim”, está tramado. Como dizia um ilustre (?) professor, «eu não quero saber o que o senhor sabe, eu quero saber se sabe aquilo que lhe ensinei». Eis a receita…

Estamos, assim, perante uma escola culta mas muito longe de uma escola cultural. Esta passará muito mais pela procura do peixe invulgar que não cai na rede – este é que é bom pela raridade e pelo sabor a novidade – do que pelo que se pesca nas águas quietas dos lagos lodosos.




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