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Fumar ou não fumar?

O tabaco tem sido, desde longa data, alvo das maiores acusações e dos maiores encómios, o que deixa muita gente perplexa. Em 1604, o rei Jaime I de Inglaterra amaldiçoou o hábito de fumar, considerando-o como «um costume repugnante à vista, odioso para o nariz, daninho para o cérebro e perigoso para os pulmões».

N/D
6 Set 2003

As suas palavras parece que não tiveram grande influência pois vemos que o costume de fumar cada vez se generalizava mais. Foi em meados do século XX que a «guerra» ao tabaco começou a ganhar terreno. A décima Conferência Mundial sobre o Tabaco e a Saúde, celebrada em Pequim, alertou para este vício que mata três milhões e meio de pessoas por ano.
Em Março deste ano, um pequeno fabricante de tabaco reconheceu que fumar causa cancro nos pulmões, doenças de coração e enfisema – tudo situações graves. Muitos viram nestas afirmações uma justificação para o fabricante justificar os maus resultados económicos que tinha tido na sua empresa.

As grandes tabaqueiras entraram em pânico, pois que foram revelados documentos que podiam incriminá-las; trataram então de criar um arquivo para guardar toda a documentação sobre os malefícios do tabaco para a saúde, a toxidade dos produtos incluídos nos cigarros, a dependência que o tabaco cria, pois também ele é uma droga, a publicidade aliciando menores, etc.

Supostamente esses documentos deviam ser confidenciais, mas não resistiram à fuga de informações.

O Estado era o primeiro a reclamar por causa dos gastos com a saúde pública afectada pelo tabaco e queria a proibição de nicotina no tabaco (o tal tabaco «light»).

Os inimigos do tabaco pretendiam recuperar os fundos gastos pelo Estado no tratamento dos fumadores e queriam que houvesse negociações, que foram aceites pela primeira vez: as grandes tabaqueiras participavam com avultadas quantias para esses tratamentos ao mesmo tempo que reformulavam as suas campanhas de publicidade.

Pensavam assim reduzir o consumo do tabaco, sobretudo entre os jovens – trampolim para o consumo de droga, empregando o dinheiro em campanhas educativas mostrando os malefícios do tabaco. As negociações previam que se o número de fumadores não baixasse 50 por cento em sete anos, as tabaqueiras seriam obrigadas a pagar elevadas multas.

Parecia ter havido uma vitória. A publicidade foi proibida nos recintos desportivos, na Internet, em filmes ou peças de teatro. Foi movida uma guerra às máquinas automáticas de venda de tabaco e os maços deviam ter escrito “fumar pode matar” ou “os cigarros causam cancro”.

Mas que vemos nós? Ainda há pouco nas corridas de Fórmula 1, vistas por milhões de telespectadores, os carros ostentavam os nomes das marcas de tabaco mais conhecidas e ao longo dos circuitos o mesmo se passava.

A tolerância das tabaqueiras relativamente às medidas que deviam tomar pareceram a muitos uma maneira encapotada de fazer publicidade. Os lucros que continuam a auferir dão para pagar as multas e participar nos tratamentos das doenças causadas pelo fumo.

Bill Clinton, no seu mandato, empenhou-se a fundo na campanha contra o tabaco, mas à distância, pois que os acordos só se podiam converter em lei com a aprovação do Congresso, controlado pelos republicanos, que por sinal estão bastante ligados às tabaqueiras. Mais uma vez o dinheiro vence a qualidade de vida.

Muitas tabaqueiras sabendo que a lei vai demorar, mas pode vir a ser promulgada, começaram a preparar alternativas – neste caso a exportação. O volume de vendas foi tal que deu grande margem de lucro às tabaqueiras – tiveram dinheiro para multas e programas de saúde…

Foram postas a claro as manobras feitas na América, entre o Estado e as tabaqueiras – o que perdiam lá, ganhavam com a exportação, transferindo os malefícios da América para o resto do mundo.

E como o dinheiro continua a ser a grande mola, os países abrem os braços à instalação das tabaqueiras, por causa do grande volume de impostos que arrecadam. As pessoas não contam ou contam pouco: o que se contabiliza é o volume de impostos que entram nos cofres dos Estados e o volume de dinheiro que os Estados gastam com a saúde dos fumadores.

Se o saldo for positivo a favor dos impostos, então venham as tabaqueiras, que serão bem recebidas. Cancro, enfisema, doenças cardíacas a mais ou a menos, tem pouca importância – o que conta é sempre o lucro, mesmo à custa da qualidade de vida ou da própria vida humana, que neste caso, como em muitos outros, tem vindo a sofrer forte desvalorização.

Marlboro, Winston e Camel reconheceram que o tabaco pode produzir o cancro e causar a morte. Chegaram a afirmar que deixariam de fabricar cigarros se se demonstrar de modo cabal que o tabaco é uma droga mortal.

Estas coisas, porém, devem respeitar a liberdade de cada fumador, sempre que ela não colida com a liberdade do não-fumador.

Mas o que vemos nós? Uma juventude (sobretudo feminina) sempre agarrada ao cigarro; a publicidade a continuar nas barbas das autoridades; e nós, os que não fumamos directamente, somos penalizados pelo «fumo passivo», que dizem os entendidos que é pior que o «activo».




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