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Como o tempo passa…

As cidades eram pouco mais que vilas; estas tinham o tamanho de aldeias, as quais não eram maiores que povoados. Era criança e as suas férias de Verão eram mesmo grandes; sem jogos portáteis, dos quais n’entendo nada, sem televisão, que é uma coisa que consola, os dias pareciam então semanas e estas eram como meses.

N/D
6 Set 2003

A aldeia ficava perto da cidade, para lá daqueles montes que a carreira serpenteava até ao início do ramal, seguindo depois para… onde? estrada fora, rumo ao desconhecido, que o seu mundo civilizado acabava ali. A aldeia era então alcançada a pé, calcorreando o macadame ao ritmo do andar dos mais pequenos. E a bagagem, descarregada do tejadilho da camioneta?
Sendo pouca, seguia à cabeça de umas quantas mulheres apalavradas para o efeito; caso justificasse, ou fazendo sociedade com mais alguma família, falava-se a um carro de bois. E então eram os ditos que pachorrentamente comandavam a marcha.

E depois os dias como eram passados lá na aldeia? Salvo raras excepções, eram autênticas fotocópias uns dos outros. De manhã ia-se para o pinhal, com a variante de ser para “este” ou para “aquele”. Chegados lá e estendida a manta, as cenas repetiam-se. Um tio mais habilidoso (e também prudente) faziam um barquinho de um pedaço de carcódia («Não, não te deixo tentar porque és ainda muito pequenino e podes-te cortar com o canivete»).

Arranjavam-se pedrinhas para construir uma casinha, qual miniatura de antigas ruínas romanas ou celtas, construção sólida q.b. pois chegava a permanecer incólume dois ou três dias. Jogava-se o “Jogo da Glória” ou, num longínquo antecedente do “paint ball” e naquele cenário, o “Jogo do Assalto” (em que os atacantes e os defensores usavam cápsulas de eucalipto como capacete); ou em alternativa jogava-se cartas, ao “burro matemático” ou ao “desconfio”, que a “sueca” era jogo de adultos. E desconfio que havia outros entreténs que já não recordo.

De tarde ia-se dar um passeio até ao fundo da aldeia. Era assim: a rua, depois de haver invadido o povoado, bifurcava lá em baixo no chafariz, seguindo direcções opostas a caminho do “fim do mundo”, tarefa cuidada, tantas eram as quelhas, as azinhagas, as vielas que o procuravam; findas as casas, os carreiros estreitavam-se cada vez mais até se perderam pelos pinhais adentro.

Só muitos anos mais tarde, o progresso veio a possibilitar entrar na aldeia por um lado e sair por outro.

As cidades, as vilas e as aldeias foram-se desenvolvendo ao seu próprio ritmo. A criança foi crescendo também, até se tornar um adulto.

Quando as suas filhas eram crianças o carro que as levava ramal adiante até à aldeia pisava uma espécie de asfalto que então já cobria o macadame de outros tempos.

Para manter a tradição, nos poucos dias que lá passavam elas eram levadas a um pinhal ou ao outro; lá viam fazer barquinhos de pedaços de carcódia, mas eram muito pequenas para trabalharem nesses estaleiros a manusear as respectivas ferramentas.

Uma novidade havia entretanto, fruto do tempo que passara; elas eram estimuladas a subir ao marco geodésico. Já não desfrutavam porém do tamanho do mundo pois os pinheiros e eucaliptos em redor impediam-no; por entre ramadas cada vez mais frondosas, apenas vislumbravam algumas povoações lá ao longe, espalhadas um pouco pelas encostas; que outras, escondidas nos vales, aí continuavam protegidas de olhares curiosos.

Mas o adulto já não conseguia mostrar às filhas a aldeia, que os outros adultos lhe haviam mostrado quando ele era criança como elas, berço daquela mulher que os vira crescer e para quem eram ainda e sempre “meninos”. Era uma mulher mais simples que as mais simples de qualquer aldeia dos arredores. Para ela a vida não tinha segredos pois tudo o que ela não conhecia era como se não existisse.

Não sabia ler, mas lia no livro da vida. Não sabia ver as horas mas nem por isso era madraça ou deixava de cumprir as suas obrigações de cada dia; a natureza se encarregava de lhas indicar em cada dia com uma pontualidade impressionante: ao romper da alva o cucuritar dos galos despertava-a e punha-a a pé, pois não era dada à mais leve preguiça; o primeiro toque das Trindades dizia-lhe que era a hora do mata-bicho, que a do jantar era o relógio do estômago que a indicava, depois de cumpridas as tarefas da manhã.

À hora certa os animais reclamavam-lhe a comida. O mais impaciente de todos era o reco, que começava a dar sinal mais cedo fossando junto às tábuas da pocilga; tanto que a boa da mulher, perdendo a paciência com a impaciência do animal, por vezes tinha que lhe pôr um arganel no focinho.

E as tarefas sucediam-se assim umas às outras.

No fim delas todas cumpridas e após a ceia à mesa da “sua” família, que os amos eram-no apenas de nome, a surdez da criatura dava-lhe o privilégio de conduzir as orações do grupo.

Nessa altura ela elevava os olhos para o Senhor, que via no verão rodeado de estrelas no escuro do céu e no Inverno reflectido na luz da lenha que crepitava na lareira; agradecia-Lhe então a vida que vivera nesse dia e pedia por todos os “motores” que andavam na estrada, para serem bem guiados.

Se era um da casa que partia já noite cerrada, ela ficava-se a olhar a luz do carro a rasgar a escuridão dos montes até a ver desaparecer quando dobrava o cimo da serra mais distante.

Um único “pecado” lhe era conhecido, o de querer imitar a linguagem daqueles com os quais vivia; como daquela vez que os acompanhou pelas matas e exclamou: «os euclipes crescem bestial».




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