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Um homem limitado

1 Uma arca numa cabana, no fundo dum pinhal Façam os Senhores o favor de acreditar no que vou contar a seguir, que eu por mim não garanto que eu próprio acredite.

N/D
2 Set 2003

Era por Setembro, há muitos anos. Tinha eu uns 10 ou 11 anos de idade e um parente meu que apareceu na aldeia e trajava à maneira do século XVII, convidou-me a conhecer um local secreto.
Acompanhei-o, porque me pareceu que outros familiares da minha confiança conheciam o assunto e aprovaram. O homem era de estatura muito elevada e devia pesar para aí uns 120 kg. Tinha o cabelo castanho claro e usava-o bastante comprido. Os seus olhos eram verde azulados de um tom raro, numa cara redonda, bem barbeada; o nariz, algo grosso.

Caminhámos então quase duas horas por veredas da aldeia que eu nem sabia que existiam. E chegámos a um daqueles vales pequenos e apertados, bem escondidos, com um exíguo milheiral no meio e pinhal de ambos os lados. No fundo do vale havia uma pequena casa velha, em granito. O homem olhava-me com um respeito e admiração que eu achava descabidos, como se eu fosse algum rei ou profeta. E como se ele estivesse à espera daquele momento desde há muitos séculos. E parecia ansioso por ver o que eu faria a seguir. Umas vezes tratava-me por Eduardo ou por Henrique. Outras chamava-me Leovigildo, com um ar de gozo e perguntava-me se eu não era cunhado de San Leandro.

Entrou à minha frente na cabana e abriu uma pequena arca de madeira velha. Dentro, encontrava-se uma espada muito, muito antiga e uma capa vermelha. E disse, primeiro em português e depois numa língua que eu não conhecia (mas que se assemelhava a alemão ou inglês), que eu nunca me esquecesse daquele local. Que naquele baú havia uma espada que era herança minha; e que ela ali estava à minha espera se algum dia a quisesse vir buscar. E então eu perguntei pela capa. Várias vezes. E ele recusou responder. Disse-me apenas que aproveitasse, porque no Canadá, na Inglaterra, na Áustria, na Boémia, na Croácia e noutros lugares, havia gente que esperava por mim e me daria riqueza, filhas, poder, felicidade, sucesso. Que não ficasse, que fosse. E continuou a olhar para mim como se eu fosse um rei ou um sábio ou um profeta. Saímos, fechou a porta e começámos o regresso à aldeia. Quando a estrada de terra passava entre duas bouças, no alto dum cerro, foi ter com quatro cavaleiros vestidos à maneira do século VII, que o esperavam à distância com um quinto cavalo para ele. Despediu-se, montou e foram-se, pelo meio do bosque. E eu regressei à aldeia.
Nunca mais, como é natural, esqueci aquele dia, nem a cabana, nem a localização desta. Mas nunca lá voltei, nem pela espada nem pela capa vermelha. Com os anos, o significado daquela espada purificadora e setentrional foi-me evidente. O significado do manto rubro é que ainda carecia de confirmação. Embora, sozinho, estava eu já certo de ter intuído a sua simbologia.

2) A capa vermelha

Há semanas atrás, andava eu por aqueles lados a observar a Natureza (ou o que resta dela) e salta-me ao caminho um indivíduo que parecia tirado daquelas pinturas romanas ou bizantinas sobre trabalhos agrícolas. Parecia ao mesmo tempo agricultor, soldado e capataz. Suado, o cabelo castanho cortado e a revelar certa calvície, os olhos castanhos, claros e vivos, a barba negra de dois dias, a cabeça redonda, um sorriso de dentes sem falhas, a estatura média-baixa, sandálias e um colete de couro, um saiote branco, à volta do qual se apertava um cinto com uma espada pequena, uma capa castanha pelas costas.

Fiquei enregelado, porque me veio de imediato à memória aquele inesquecível dia de Setembro de há décadas atrás. «Queres que fale em latim ou que fale em italia-no?» Pouco demorei a responder. Mas antes que eu o fizesse, já o soldado começava a usar a língua de Ovídio e Catulo. Ri-me, contrafeito, e disse: «Espere aí, para mim, latim tem de ser devagar e de preferência por escrito; fale lá em italiano». Disse estão: «Senti, Tomasino». «Eu sou como aquele outro que te apareceu há 30 anos; sou também teu tio, irmão de um avô teu, muito, muito antigo. Só que ainda sou mais velho que o outro. Ele era um conde godo, na Espanha do século VII. Eu sou um soldado e agricultor das colinas do Lácio e vivi no século II antes de César (ou de Cristo como queiras). Fiz guerra contra Cartago e contra os Iberos. Tive terras na Espanha mas regressei à Pátria. O teu avô ficou por aí. Nós somos da “gens Antonia”, tal como os teus antepassados do norte da via romana, no Couto, em Oliveira e em Aeminium (ou como dizeis agora, Coimbra). Mas a tua raça de Santarém (que no meu tempo era Scalabis ou Praesidium Julium) é da “gens Julia”. Nunca esqueças que és um provincial, mas tão romano como os de Roma. E deixa-me tratar-te por Antonio!» Respondi: «Zio, ma io sono portoghese, sono spagnolo… Oggi, noi siamo um popolo complesso. Non siamo solamente romani.

Aviamo anche nelle vene, sangue di altri popoli. È molto complicato…». Respondeu-me o legionário, algo irritado: «Veni, veni con me, andiamo al vecchio allogio abbandonato!» Quem era eu para negar… A curiosidade, o fascínio, a fatalidade, o apelo do sangue, tudo me fez confiar na proposta do vetusto parente.

3) Um romano avalia os Celtas

Descemos à cabana e lá estava ela igual à de há 30 anos atrás; e com um ar de que era usada quase todos dias. Entrámos e lá estava a arca, no mesmo sítio de então. Abriu-a e retirou a capa vermelha, desdobrando-a e abrindo-a no ar. Surpreendentemente, tinha pouco pó e estava pouco desgastada.

«Andonie», disse, «eis esta capa, símbolo do povo romano e que aqui esteve 2100 anos para, se quiseres, se tornar tua herança. Percebo, pelo que me dizes, que tens relutância em te afastares da nação celtibera no meio da qual nasceste. Que para mais (e isto eu já sabia) as filhas dos celtas desde a Grã-Bretanha à Ibérica (e passando pela Gália) são as tuas favoritas. Mas eu previno-te contra os Celtas. O Galo nem é Romano nem é Germano. É vaidoso, distraído, displicente, mais regionalista ou internacionalista que patriota. É demasiado optimista e auto-confiante, mas digo-te, tirando a aparência vale pouco. Nós destruímos as suas nações e a sua cultura pela força, depois de os termos dividido. E a conquista foi bem sangrenta. A conquista e pacificação da Gália deve-lhes ter custado um milhão de mortos. E no tempo de Nero, na Britânia, a repressão da revolta de Boudicca, a rainha celta, só essa, passou dos 100.000 mortos. Mas aquilo que nós lhes fizemos pela força, naqueles tempos da nossa glória, fazem-lhe hoje os Caldeus, pela manha. Fazem deles o que querem. Malditos Caldeus de Nova Eburacum, que nos dissolveram o Império com uma religião pacifista! Percebes o que eu digo porque és um homem culto, Andonie. Deixa os Celtas… Lavora con noi…».

Embaraçado, eu revendei: «Tio, sabe, eu fui educado ainda no tempo da Autocracia portuguesa e aquela escola de pensamento nacionalista deixou-me marcas para o resto da vida. Não posso abandoná-los, sobretudo numa altura em que entre eles tão poucos têm boas ideias e sentido crítico». «Mas eles não têm cura, são celtas», respondeu o legionário. «Então tu achas, Andonie, que vale a pena pertencer a um povo em que as mulheres mandam nos homens? Um povo que não tem amor (nem sequer respeito!) pela Mãe Natureza e consente a destruição sistemática dos penedos e das fragas? E que pelo fogo destrói as belas florestas autóctones que cobriam no passado os seus montes e vales, abrigando milhares de espécies diferentes de animais e plantas? Olha que naquele tempo o teu avô caçava ursos e veados no sul da Ibéria… Tu já te esqueceste que quando os teus queridos Lusitanos chegaram à ilha da Madeira, para a desbravarem deitaram-lhe fogo e ela esteve a arder várias semanas? Andonie, quando tu eras pequeno um dos teus ídolos era o “ispettore Columbo”, tu és amigo dos romanos do Gerês, tu eras o preferido da tua tia Maria Emília e do senhor Apolo (da Vila da Feira), tu és amigo do Flamínio (todos são italianos). Tu aprendeste latim aos 16 anos, tu adoras os cantos da Córsega e do Piemonte, tu veneras Rossini, Vivaldi, Verdi, Donizetti, tu és fã da Udinese, do Roma, da Sampdoria… Tu não esqueceste nunca a filha do merceeiro, na Úmbria (tinhas tu uns 14 anos) nem aquela beldade mais velha e pesada que outra vez viste em Vittorio Veneto, no Friule… Antonie, olha a cara dos teus primos Mário Rui e Zé Carlos, são italianos; o último é íntimo dos italianos de Lausana. Decide-te. Leva a capa…».

E foi-se embora sem se despedir. Fiquei ali sozinho, naquele fim de tarde ensolarada de Verão. Eu que sou «homem de Julho», que nasci em Julho. Mas não ousei levar a capa vermelha, como outrora não ousara retirar a espada do visigodo. Fechei a arca, fechei a porta da cabana e saí dali rápido.

Aliviado por mais uma vez ter fintado as responsabilidades e as honrarias que o destino me ofereceria, nada cobrando da minha recusa. Decepcionado comigo próprio, convencido que estou de que continuarei até ao fim da vida a ser «um homem limitado». Uma vítima do forçoso hibridismo, físico e intelectual, causado pela geografia do lugar «onde a Terra acaba e o Mar começa»…




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