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A corrida a Belém

Numa altura em que já se começa a falar, embora timidamente, das eleições presidenciais, parece-me pertinente fazer uma análise, ainda que superficial, sobre as opções que os partidos dispõem para se baterem nesta disputa eleitoral.

N/D
2 Set 2003

Comecemos pela ala esquerda do nosso quadrante político.
O Bloco de Esquerda não concorre definitivamente para ganhar, interessar-lhe-á porventura tentar obter um bom resultado que lhe permita alargar horizontes, cimentar a sua representatividade e, quem sabe, tentar garantir o seu lugar numa eventual coligação de esquerda. Confesso que neste caso, os presidenciáveis bloquistas são mais do que o que pode parecer. Fernando Rosas já foi candidato, obteve o resultado esperado, pelo que não representou nenhuma surpresa. Continua a ser uma das caras do partido, mas não me parece que a sua postura e a sua área de intervenção sejam de um candidato presidencial. Francisco Louçã é uma hipótese, pois está bem no centro do aparelho partidário, congrega as qualidades necessárias para atingir os objectivos eleitorais do Bloco de Esquerda. Ana Drago, por sua vez, não me parece estar nesta corrida, pois acredito mais na sua candidatura às eleições europeias do próximo ano. Miguel Portas poderia perfilar-se também como o candidato do Bloco, pois não tem aparecido tanto na primeira linha de acção do partido, pelo que estaria numa posição boa para se candidatar a Belém… Esta é quanto a mim a hipótese mais provável.

O Partido Comunista Português (PCP) poderá alinhar por uma de três hipóteses: ou avança com o seu próprio candidato, ou apoia o candidato do Partido Socialista, ou entra numa coligação de esquerda para tentar garantir a manutenção da Presidência da República do lado da esquerda. Desde já me parece que a primeira hipótese seria muito pouco provável, até porque a crise política da esquerda afecta todos os partidos, pelo que esta seria a altura ideal para unir forças e fazer uma oposição mais concertada e coerente à coligação de centro-direita que governa o país. Por outro lado, penso que as opções dos comunistas não seriam muitas. Resta-nos saber se será uma situação de coligação, ou um apoio ao candidato do PS. A diferença óbvia entre a primeira e a segunda hipótese está no facto de o PCP participar ou não na escolha do candidato. É a diferença entre ter “voto na matéria” ou ter de aceitar o que nos é imposto. No entanto, penso que neste caso concreto a diferença será pouca, pois os candidatos que se perfilam do lado do PS não têm grandes resistências do outro lado, pelo que isto será um “caldinho” de esquerda. E quais são os candidatos que se perfilam para personificar uma candidatura da esquerda unida?

Do lado do PS as opções são de facto diversas, mas no entanto penso que só um terá verdadeiras hipóteses de ganhar a mais que provável coligação de direita. Senão vejamos. Mário Soares foi Presidente durante dez anos, fez um interregno na vida política durante uns tempos, e voltou para se candidatar à Europa naquele que penso ter sido a sua última batalha eleitoral. Não seria inteligente lançar este candidato pois, apesar do prestígio por ele alcançado dentro e fora do país, a idade começa já a pesar e o seu perfil actual adequa-se mais ao do eterno conselheiro do partido, símbolo da unidade da esquerda… enfim, a de figura histórica e representativa dos valores socialistas. António Guterres é o homem de quem se fala como sendo o mais provável candidato do PS e eventualmente da esquerda a Belém; no entanto, penso que esta seria uma ilusão, pois Guterres deixou marcas bem profundas no povo português, não só pela sua conduta governativa, mas também pela forma humilhante e derrotista com que provocou a queda do governo que encabeçava. Apesar de ter algum prestígio na sociedade portuguesa, penso que o seu carisma não chegaria para vencer a direita unida, caso esta escolhesse um candidato à altura. Jaime Gama é o senhor que se segue no rol de candidatos. Foi um dos ministros fortes da era socialista no governo de Portugal, tem postura e prestígio internacional de presidente, mas falta-lhe carisma e arrojo para querer avançar. O homem ideal, na minha modesta opinião, para representar a esquerda nas próximas eleições presidenciais seria António Vitorino. Tem carisma, prestígio internacional notável, estou convencido que congregaria o apoio do PCP e, acima de tudo, está aparentemente fora do aparelho socialista, pelo que não está conotado com a actuação desprestigiante e desnorteada que o partido tem vindo a desenvolver, nomeadamente na pessoa do seu secretário-geral. É o homem ideal e que se arriscaria seriamente a ganhar as eleições, dando assim uma “lufada de ar fresco” ao Partido Socialista.

À direita parece-me evidente que a solução de coligação irá continuar. A questão é saber qual será o candidato que reunirá PSD e CDS-PP em torno de uma só pessoa. Irei apenas analisar três prováveis candidatos, pois parecem-me aqueles que mais hipóteses têm de o virem a ser. Cavaco Silva é o eterno candidato a candidato. Fala-se sempre nele, mas parece-me que não seria a melhor opção, não estritamente por questões de resultado eleitoral, mas porque não me parece ser capaz de ser gerador de consenso entre os dois partidos. A era cavaquista ficou bem marcada pelo país fora e penso que em termos de popularidade, não estará muito mal colocado, pois o que lá vai lá vai e pouca gente se lembra. Por outro lado, a sua gestão governamental contribuiu de forma abrupta para o desenvolvimento do país nos mais diversos níveis, embora muito tivesse sido mal gerido, o facto é que tem esse mérito e ninguém lho tira. Francisco Pinto Balsemão é o homem de quem ninguém fala, mas que lá vai falando volta e meia… nunca está na ribalta política, mas penso que tem sempre um lugar no rol dos candidatos a candidatos. Pedro Santana Lopes é, quanto a mim, a pessoa que tem todas as condições para ser o tão ansiado Presidente da República de direita em Portugal. Senão repare: penso que reunirá consenso entre os dois partidos, tem um perfil irreverente que imprimiria um novo estilo ao Chefe de Estado que poderia trazer importantes benefícios para Portugal, tem vontade de o fazer e seria o maior desafio da sua vida, pelo que estou certo que o empenho e o consequente desempenho seriam fenomenais. Penso que estaria preparado para enfrentar qualquer um dos candidatos da esquerda (o único que lhe faria frente de uma forma mais perigosa seria António Vitorino), pelo que seria o candidato ideal para o centro-direita.

Se tivéssemos umas eleições disputadas entre Vitorino e Santana, quem ficaria a ganhar era o povo, pois poderia escolher entre dois bons candidatos, e a democracia, porque ganhava uma nova vitalidade…




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