Fotografia:
Inacreditável

As declarações de Ramos Horta ao advogar a pena de morte para os terroristas, mesmo que em casos especiais ou especialíssimos, não deixam de causar estranheza pela contradição que suportam.

N/D
1 Set 2003

Por um lado Ramos Horta é um Nobel da Paz o que pressupõe, desde logo, ser um defensor da vida humana; por outro lado arroga-se no direito de tirar a vida a um seu semelhante. Com que linhas se cosem estes retalhos? Para quem foi educado na certeza de que a vida é um bem sagrado, um arrepio percorre o corpo e um mau estar profundo encrespa a alma. Sabemos todos que as palavras de Ramos Horta foram ditadas pela enormidade do atentado terrorista contra as instalações da ONU, no Iraque, e que teve como consequência mais visível a morte do diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello. Quem não repudia e não lamenta tal barbaridade? A irritação é aqui uma manifestação natural justificada pela agressão; mas as declarações de Ramos Horta é que nos parecem totalmente injustificadas. Foi a quente, em cima do acontecimento? É sem defesas que se pode sondar a verdadeira alma dos homens. É pelas convicções e não pelas situações que se conhecem os insondáveis das atitudes. E neste aspecto o que vimos, assim, sem máscara social e representação diplomática ao prémio Nobel da Paz, Ramos Horta, não se nos mostra senão sob uma faceta que de todo não conhecíamos, nem sequer suspeitávamos. Sentimo-nos como que ludibriados. Se fosse dito por Bush, por exemplo, de nada nos admiraría-mos; ele é um belicista e, nestes, a vida não tem o mesmo preço e apreço do que tem os humanistas. Agora dito, com toda a convicção, por um laureado pela paz, fica-nos a boca a saber a ressaca. Depois acresce ainda a ineficácia da punição proposta. A pena de morte, onde a há, não tem servido de medida dissuasora; os grandes crimes continuam mesmo assim: os estabelecimentos prisionais da pena de morte estão cheios. Fazendo fé em Durkheim quando, a respeito do suicídio, o coloca também, no âmbito da imitação, perguntamos porque não o mesmo a respeito dos fanáticos? Se, para ser piloto suicida japonês, na segunda guerra, segundo rezam as crónicas, era preciso meter cunha para pertencer ao grupo, por que razão não hão-de ter o mesmo comportamento os terroristas suicidas que agora vemos fazerem-se explodir no Iraque, ou em Israel ou na Palestina? E poderá a pena de morte barrar este caudal, ou travar estas apetências? Sinceramente julgamos que não. Mesmo que conseguíssemos habituarmo- -nos à ideia de que, dente por dente e olho por olho, seria a solução, não estaríamos a regredir ao tempo e ao espírito das ordálias, de que não há memória no mundo, desde o século XIII? Parece faltar a Ramos Horta a capacidade de perdão que é, em qualquer ser humano, uma elevação do espírito. A vingança sustenta-se da memória, alimento farto; o perdão alimenta-se da sublimação, sustento raro. Para esta ser possível é preciso nobreza de sentimentos. Porque estes não são herdados, não têm genealogia nem berço dourado, têm que ser adquiridos no exercício continuado do respeito absoluto pela vida humana.




Notícias relacionadas


Scroll Up