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«É disto que o meu povo gosta»?

Um conhecido apresentador de um programa da manhã das nossas televisões anuncia a intenção de pegar um touro pelos cornos, em directo no seu programa, no âmbito de um «plano» que tem para «angariação de fundos para as pessoas mais carenciadas». E não é para as vítimas dos incêndios porque… já começou a chover. Não é comovente?

N/D
1 Set 2003

No mesmo canal, e com o espavento habitual, voltamos a ser convocados para integrar a equipa do Big Brother. O Big Brother somos nós, dizem eles. E eles dizem que «vão pôr tudo a nu». Eles sabem que nós sabemos que eles querem dizer que vão pôr tudo nu. Esclarecedor.
Um político, com não escondidas aspirações à mais elevada magistratura da nação, que deveria responder pelos seus actos, mas que dominicalmente comentava os actos dos outros, sob a sombra do comentador-mor do reino, achou que precisava de brilhar sozinho e para maior audiência. Vedeta televisiva que é, transferiu-se para outro canal que lhe promete outra margem de manobra estratégica e táctica. Instrutivo.

Em todos os canais, iremos ter, a partir de agora, provavelmente o massacre mais deprimente que alguma vez houve em Portugal, com base nos elementos que vierem a lume no julgamento do mega-escândalo da pedofilia. Preocupante.

Mas, como dizia o outro, «é disto que o meu povo gosta». Especialmente em tempos em que a vida está dura, a recessão não desanda e o desemprego se agudiza. Viver por procuração, viver noutro lugar, contentar-se com os males próprios ao ver a magnitude da desgraça alheia cozinhada até ao tutano e exposta com o máximo descaramento, nos “reality shows” ou nos telejornais. É isto que as televisões nos oferecem como «discurso geral», nas horas em que nós, o comum dos mortais, as podemos ver.

Pode ser que os canais públicos nos tragam alguma diferença que destoe da “música” geral. Depois de acabar com o programa “Acontece” e de mitigadamente sugerir o fim de “O Lugar da História”, a RTP vai anunciar dentro de dias o novo figurino do seu segundo canal. Não simpatizo nada com a ideia de acabar com o que valia alguma coisa, em nome da promessa de, um dia, fazer melhor.

Ou seja, não estamos em maré de grande entusiasmo perante o panorama televisivo nacional. Porém: há ofertas interessantes na TV por cabo. Há a música que podemos ouvir. Há bons livros à espera de leitura. Há muitas outras actividades, domésticas e comunitárias, à nossa espera. Felizmente que o nosso mundo é maior do que o mundo da televisão.




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