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O A a Z do lado menos memorável do verão

Avionetas – para anunciar as coisas mais variadas, havia voos regulares de avionetas sobre as praias. Nem a Santa Casa da Misericórdia deixou de utilizar os serviços aéreos para se dirigir aos banhistas. «Aposte no jackpot do loto 2», dizia o dístico que uma avioneta trazia atrelado. A misericórdia – pelo menos ela – recomendaria que os veraneantes fossem deixados em sossego.

N/D
31 Ago 2003

Camisolas – todos os dias, o emigrante aparecia no café vestindo sempre a mesma camisola da selecção portuguesa (o defeito numa letra estampada dizia que era sempre a mesma). Se se considerar o facto negativamente, pode-se lamentar a pouca consideração pela higiene. Se se quiser olhar positivamente, não se pode deixar de considerar comovedor o apego aos símbolos da nação.
Elevadores – quando o elevador chegou ao rés-do-chão, a rapariga que esperava para subir fez de porteira a duas velhotas que acabavam de descer. As velhotas não agradeceram. A situação, que com outras personagens se repetiria, pode ser encarada negativa ou positivamente. Negativamente, por causa da má-criação das velhotas; positivamente, por causa da boa educação da rapariga.

Estacionamento – a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim vai construir um parque de estacionamento subterrâneo próximo da praia, entre o Diana Bar e a igreja de Nossa Senhora das Dores. Mais um esforço e construíam-no por baixo do areal com acesso directo às barracas.

Exclusão social – o “Diário de Notí-cias” não concedeu, este ano, ao país o privilégio de poder saborear as estimulantes crónicas de Cinha Jardim. A nação ficou assim privada de ouvir na primeira pessoa os relatos do que, se assim se pode dizer, foi socialmente contando neste Verão quente. Cinha Jardim foi vítima da exclusão social. Não foi, aliás, a única a quem as portas se fecharam. Paula Bobone e um outro cromo chamado José Castelo Branco foram impedidos de entrar, respectivamente, na festa algarvia da “Caras Notícias” e numa festa do T-Clube. Quando e onde menos se espera, eis que emergem novos sem-abrigo.

Humor – imaginem os grunhos que adoram dirigir comentários idiotas às raparigas que têm idades para serem filhas deles. Depois, imaginem-nos, a esses machos, bêbedos, a contar anedotas estúpidas. Há vários rapazes que fazem esse género num programa da SIC, que dizem ser de stand up comedy, uma designação pretensio-sa que embrulha um programa baratinho e, normalmente, ordinário. O mais famoso é Rocha de apelido e tem tido muito sucesso em festas populares e nos sítios onde, em geral, o álcool abunda e a inteligência escasseia. Certamente, por ser o mais grunho e pornográfico de todos, ganhou direito a um programa a solo na SIC.

Incêndios – quando há tragédias é habitual aproveitar-se para se dizer mal das televisões, como se fossem elas que as provocassem. Os incêndios foram disso mais um exemplo. Num artigo publicado no “Diário de Notícias”, Nuno Cintra Torres, apresentado como «especialista em televisão», escreveu que «parece que este ano foi tudo pior, mas não foi. Enquadrou-se no padrão. A diferença esteve na percepção publicada e transmitida sobre os acontecimentos». Enganou-se clamorosamente. Os números divulgados pela Direcção-Geral de Florestas indicam que este ano ardeu quase o dobro da floresta ardida em 1991, o ano do recorde anterior.

E, segundo os números que o Centro de Investigação Comum da Comissão Europeia divulgou na quarta-feira, a área de floresta ardida em cada ano desde 1990, se se exceptuar 1991, foi sempre menos de metade da que ardeu em 2003. Conclusão: até para se dizer mal é preciso fazer contas.

Língua portuguesa – um considerável número de emigrantes gosta de se expressar, pelo menos durante as férias, na língua dos países de acolhimento. Isto tem um lado mau e um lado bom. O lado mau é esquecerem-se da língua mãe, que falam cada vez pior; o lado bom é terem mais tempo para aperfeiçoar as línguas que dominam sofrivelmente.

Lixo – é verdadeiramente impressionante a quantidade de lixo que se produz no litoral. Pelo que se pode constatar sobretudo quando algum saco de lixo está rebentado, são as garrafas de refrigerantes (Coca Cola, Fanta, Seven Up e os respectivos sucedâneos) que mais contribuem para engordar o amontoado de detritos. E as famílias, claro.

Música – para começar, pega-se numa música que pode durar dois ou três minutos. Depois, através de diversos processos, faz-se com que essa mesma música renda três quartos de hora (os não apreciadores dirão que se trata de um disco riscado). Finalmente, pegam-se nos três quartos de hora de música esticada e servem-se em doses mais pequenas, como se fossem músicas distintas. Em muitas esplanadas de praia, cafés e discotecas, era isto que se administrava aos clientes.

Pedintes – alguns são muito maçadores, mas não se pode esquecer que São Gregório ensinou que um dos sete grandes pecados era a dureza de coração com a miséria dos pobres.

Piercings e tatuagens – um ciclista, que participou na Volta a Portugal usando a camisola da LA-Pecol, disse que gosta de «ser diferente». Para marcar a diferença, ia pôr um piercing no sobrolho, mas acabou por desistir. A quantidade dos que gastaram o verão a colocar piercings e tatuagens mostrou, contudo, que a moda se difundiu amplamente. Por isso, os que querem ser diferentes estão, agora, todos iguais. (Ao contrário do que uma senhora assegurava indignada num quiosque, não é nos talhos que se põem piercings).

Saudades – o Verão concede uma demorada oportunidade para rever pessoas, revisitar locais, sentir novamente um odor, saborear de novo uma comida. Alguns, como é óbvio, não têm oportunidade para matar saudades do que mais gostam. É o caso de Jaime Pacheco. Em “A Bola” de terça-feira passada, o treinador do Maiorca disse que, lá onde está, lhe falta o trânsito na Via de Cintura Interna. Há gostos assim, extravagantes e improváveis.

Tuning – o “Jornal de Notícias” revelou esta semana que milhares de amantes do tuning e da competição automóvel ilegal se juntam aos fins-de-semana nos arredores da cidade de Braga. Da concentração, segundo o jornal, emana um odor que combina haxixe e pneu queimado. A mistura deve ser fantástica. E deve fazer bem às crianças que os mirones levam ao colo.

Zé Maria – várias revistas sobre TV resolveram dedicar as suas páginas de Verão ao apaixonante tema das preferências sexuais do vencedor do primeiro “Big Brother”. «De que me valeu ser tratado como o Papa, se agora me crucificam?» A pergunta, que é mais um lamento, não foi escutada pelo imenso rebanho que se apresentou para tentar concorrer ao novo “Big Brother” que hoje começa.




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