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No mesmo dia

Parece que nasceu ainda ontem e já acompanha os pais pelo quintal e pelo pomar da casa. Daí a algum tempo começa a perceber que as árvores não são todas iguais e aos poucos a aprender os seus nomes e a distingui-las umas das outras.

N/D
30 Ago 2003

Até que um belo dia pergunta ao pai por que motivo há um pinheiro no meio do pomar; e ele conta-lhe então a história:
«Quando tu estavas para nascer, o terreno era ainda um pinhal para onde vínhamos às vezes passear ou apanhar pinhas para a lareira ou para o churrasco. No dia em que estavas para vir ao mundo eu andava tão ansioso que vim até cá dar uma volta quando a tua mãe ficou acompanhada; foi então que reparei pela primeira vez neste pinheirinho, acabado de sair do ventre da terra. No regresso a casa, ao entrar a porta ouvi o teu choro de recém-nascido. Por isso eu digo que tu e este pinheiro nasceram no mesmo dia».

«Então somos gémeos», responde a criança com um misto de irreverência e de satisfação. E daí em diante começa a olhar para o seu “mano” com outros olhos; em cada dia que passa acha que ele está maior. «Olha, pai, já posso descansar à sombra dele. O pior é se me cai alguma pinha na pinha».

Certo dia diz ao pai que o seu pinheiro está a chorar, lágrimas de alegria quando o vão visitar e de tristeza quando se vão embora, por não poder ir com eles para casa. O pai explica-lhe então que aquilo é a seiva do pinheiro, que se chama resina, que muitas vezes é extraída para as indústrias, por um processo que se chama resinagem. Acrescenta que quando forem de férias à aldeia hão-de dar um passeio pelos pinhais para lhe mostrar como isso se faz.

«É já amanhã que vamos ao pinhal para me mostrares aquilo da saliva dos pinheiros?», pergunta a criança ao pai ainda mal refeito da estopada da viagem.

Na manhã seguinte quatro ténis põem os respectivos pés a caminho do pinhal. «Bom dia, ti’Maria; olá ti’Manel, cada vez mais jovem».

«Isso digo eu de si, menino Zeca».

«Pai, porque te chamam menino se tu já és tão grande?»

«Sabes, estas pessoas conheceram-me quando eu era da tua idade e tratavam-me assim».

«Pai, esta rua é tão estreita. E se vêm muitos carros? Ainda falta muito para chegarmos ao pinhal?»

«É já ali ao fundo da aldeia».

«E o que é uma aldeia, pai?»

Chegam ao pinhal. «Vamos descobrir um pinheiro com resina. Está ali aquele». Entre o admirado e o triste, a criança observa então o golpe no sítio onde tiraram a casca, no fundo do qual está preso um saco de plástico para o qual escorre a resina.

«Antigamente ela escorria para uma tigelinha de barro em forma de vaso. Os resineiros passam de vez em quando por aqui para recolher a resina».

«Pai, olha este pinheiro com tantos golpes já secos e só um ainda com a resina a escorrer».




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