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Quando a pedra rejeitada… é aproveitada

Decorria, se não me engano, o ano lectivo de 1988/89, quando numa reunião final de avaliação de uma turma do 7.º ano de escolaridade, numa escola de ensino particular com regime de cobertura na zona em que se inseria, foram debitadas as notas de um determinado aluno. Tinha quatro negativas. Ouviu-se, então, esta referência: «quer ser padre!»… e reprovou!

N/D
29 Ago 2003

Nessa época – e por breves quatro anos – fui professor de Educação Moral e Religiosa Católicas, numa experiência um tanto interessante, mas sem resultados significativos. O episódio em apreço foi das poucas coisas que guardo… com tristeza!
O aluno em causa era tímido, com boa vontade, mas nem sempre capaz de revelar as capacidades que possuía. Isso mesmo se verificou passado pouco tempo ao ter quase suspendido os estudos.
Perdi-o de vista, tendo-o reconhecido – já seminarista maior – numa paróquia onde me referiram o nome, vindo-me à lembrança a situação relatada. Por estes dias celebra a sua “missa nova” e está prestes a assumir a responsabilidade de três paróquias na zona rural/montanhosa da Arquidiocese de Braga.

Diante do percurso deste jovem sacerdote senti um apelo a reflectir sobre pequenos aspectos da preparação, ministério e função (sobretudo) dos jovens sacerdotes. Duas outras condicionantes da vida recente me levaram a sentir alguma “urgência” nesta partilha. A primeira tem a ver com dois momentos vivenciados num só domingo: o baptismo, pela manhã, de um filho de um jovem ex-padre e o funeral, à tarde, da mulher de um septuagenário ex-padre. Outro aspecto que proporcionou ainda esta preocupação foi o contacto, em forma de visita, com sacerdotes mais novos e mais velhos – de várias dioceses e com experiências pastorais distintas – que, em jeito de reflexão, fomos fazendo sobre situações eclesiais e/ou eclesiásticas mais ou menos preocupantes, ao menos da nossa parte:

– Recrutamento dos novos padres: quantas vezes, olhando para trás, vemos que a entrada ainda criança para o seminário foi abandonada por um outro trabalho «mais natural», isto é, vivendo cada um dos (possíveis) candidatos no seu contexto familiar, escolar, paroquial e social. Apesar das boas intenções parece-nos que – como partilhava um dos padres com quem me encontrei neste tempo de Verão – esta opção teve um intuito um tanto economicista e talvez (até) pouco salvaguardadora da semente de vocação por entre as seduções – afectivas, morais, de honrarias – do mundo.

Explicando: não é porque muitos dos seminaristas saíram – mas hoje até estão em lugares chaves da sociedade! – e não vingar a aposta, que se deveria ter acabado com a escola do seminário, onde se ia aprendendo de forma paulatina a discernir o chamamento de Deus, acrisolando-o pela oração e pela vida em comum com outros em idêntica situação psíquica, espiritual e mesmo intelectual. Aquelas casas pululantes de vida e energias juvenis estão hoje mortas, quais cemitérios de Igreja abandonada!… Com todos os defeitos possíveis, visíveis e corrigíveis, os seminários foram escola de vida humana, eclesial e social para muitos cristãos de ontem e de hoje… e sê-lo-ão do amanhã!

– Preparação dos candidatos: esta tarefa tão difícil está, muitas vezes, sob os olhares cépticos de muitos cristãos e, sobretudo, de outros eclesiásticos: todos têm opinião, mas poucos se empenhariam em dar-lhe cumprimento. Hoje – mesmo com a dita preparação de pré-seminário – chegam pes-soas com experiências, motivações e influências muitos distintas à formação necessária dos seminários, dizemo-lo especialmente dos diocesanos. Hoje – mais do que no passado distante – os estudos dos seminários já não são tão baratos e supletivos de outros tempos. Hoje – de forma abrangente, exigente e cordata – é preciso constituir equipas de formação de homens (de facto muitos já vêm de outras tarefas humanas e profissionais) que “descobriram” que Deus os chamava a serem seus ministros. Como isto é tarefa tão incompreensível!

– Acompanhamento na vida pastoral: feito o percurso escolar, de vida em comum e maturação espiritual, os recém-ordenados – mesmo que sejam mais velhos do que aqueles que saiam em tempos recuados – farão uma caminhada de amadurecimento – nunca plenamente acabado! – no ministério, pelo contacto com as pessoas, as dificuldades próprias da vida em conformidade com os dons/qualidades/carismas e situações de cada pessoa e/ou lugar. Neste como noutro sector de vida nada está completamente feito: há um crescimento a fazer, aprendendo de forma verdadeira, simples e humilde.

Estas pinceladas nada têm de lições nem tão pouco de interferência com quem faz este trabalho de Igreja, mas antes pretende-se deixar inquietações, acrisoladas por alguma esperança e responsabilização por este sector tantas vezes incompreendido dentro e fora da nossa Igreja Católica.




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