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A pesada herança de um ditador

É mais ou menos este o título de um artigo que o periodista polaco, Ryszard Kapuscinski, autor de Ébano y El emperador escreveu sobre o déspota que morreu há dias, aos 78 anos, numa clínica da Arábia Saudita onde estava internado desde Julho, devido a problemas de hipertensão e «fadiga geral». Texto traduzido por Jorge Ruiz Lardizábal e publicado no diário “El Pais”, do passado domingo. Esteve em coma cerca de um mês. Dirigiu o seu país com mão de ferro desde 1971, depois de ter derrubado o regime do presidente Milton Obote. Mas oito anos depois chegou a vez de ele também prestar contas. Perdeu o poder em 1979. Refugiou-se inicialmente na Líbia. A seguir exilou-se na Arábia Saudita. Países onde outros déspotas praticavam os mesmos métodos de terror para domesticarem os seus concidadãos.

N/D
29 Ago 2003

O periodista Ryszard acusa-o de ter sido um dos mais cruéis dirigentes africanos, responsável pelo assassínio de centenas de milhares de pessoas durante o seu ilegítimo mandato, para além de ter expulso dezenas de milhares de asiáticos. Ignorante e brutal, tornou-se no político mais adequado aos interesses dos Estados Unidos e do Ocidente por quem era apontado como o exemplo de que os africanos não estavam preparados para governar o seu povo. A propaganda ocidental considerava-o tão indesejável como Bokasa, desvalorizando assim a ânsia de os africanos se tornarem independentes e livres. Um diário britânico chega a relatar que o ditador se sentia fascinado pela figura de Hitler e que pretendia até levantar-lhe um monumento quando, afinal, ele nem tinha ideia de quem havia sido Hitler. O ditador apareceu na cena política no momento em que o processo de descolonização do mundo, iniciado nos anos 20, adquiriu dimensão considerável. Além disso, nos anos 60 e 70, África converteu-se num continente de enorme importância para as superpotências empenhadas na Guerra Fria. Ambos os blocos pretendiam controlar os novos países africanos que, por sua vez, faziam o jogo, ora do bloco ocidental, ora do bloco soviético, conforme o seu interesse.
As ilusões dos africanos relacionados com a descolonização desmoronaram-se, e hoje temos uma situação em que o continente negro salta para as primeiras páginas somente quando sucedem tragédias como as matanças de Ruanda, as sangrentas guerras civis da Serra Leoa e Libéria ou da desintegração de Estados como aconteceu na Somália. O ditador a que nos vimos referindo nunca obedeceu a ordens de ninguém. A sua carreira é típica de um africano que servia um exército colonial.

A táctica dos colonialistas era ter soldados africanos mas oficiais brancos. Os cargos superiores eram reservados exclusivamente para os seus próprios profissionais. No exército congolês, até ao momento em que o Congo se tornou independente, não havia nem um só oficial nativo. Esta a situação quase em todos os exércitos coloniais africanos. Quando surgiram os novos Estados independentes, ao contrário do que pensavam os colonialistas, os novos governos preferiram ter apenas exércitos autenticamente nacionais. Daí que muitos sub-oficiais foram promovidos de imediato a generais e coronéis. Foi o caso do ditador que vem merecendo a nossa atenção. Havia sido alistado no exército, em 1946, como ajudante de cozinheiro. Em 1964 houve uma sublevação das tropas do exército de África Oriental que obrigou os oficiais brancos a abandonar seus cargos e regressarem aos seus países de origem. Assim, nos países do Quénia, Tanganita e Uganda os sub-oficiais foram promovidos a generais sendo-lhes atribuídos cargos de responsabilidade. E o ditador foi na embrulhada, ele que não tinha nenhuma preparação e falava apenas o dialecto da sua tribo. Tinha sim popularidade, porque havia praticado o boxe e, durante oito anos, havia sido campeão do seu país, de pesos pesados, e também uma grande habilidade para aproveitar, a seu favor, todos os conflitos que se sucediam nos círculos governamentais de Uganda. Tinha ainda uma grande vantagem sobre muitos dos seus adversários, porque era um homem cruel e sanguinário, implacável e sem escrúpulos. Seu único objectivo era sobreviver e manter-se no poder a qualquer preço e conseguia-o com um comportamento sem dó nem piedade. Hábil e ambicioso como era, aproveitou, em Janeiro de 1971, a ausência do primeiro-ministro Milton Obote, para lhe bater com a porta, dando um golpe de Estado quando este participava numa reunião da Comunidade Britânica, em Singapura. A primeira preocupação foi chafurdar as mãos no sangue dos seus súbditos, levando a cabo no exército purgas étnicas sanguinárias, só porque os chefes militares pertenciam a tribos que estavam tradicionalmente em conflito com a tribo Kakwa, à qual ele pertencia. Eliminou literalmente todos os oficiais superiores que procediam dessas tribos e substituiu-os por homens da sua confiança. Dissolveu o Governo e criou o seu próprio executivo, também com gente da sua tribo, tão mal preparada como ele mesmo quando ascendeu a general. Os seus amigos, muitos deles analfabetos, governaram Uganda sob as ordens do boxeur golpista, durante oito anos. Isso só foi possível por circunstâncias que jogaram a seu favor: primeiro a sua natureza envenenada por terrível crueldade, derramando constantemente sangue conseguia impor a sua obediência; depois, a Guerra Fria, que estava no apogeu, também lhe facilitou a vida. Qualquer dos blocos se empenhava em conseguir a simpatia do sanguinário ditador. Uganda era um país muito importante dado o lugar que ocupava nas proximidades directas do centro de África. Idi Amín Dada recebia ajuda militar das duas partes e ardilosamente conseguia estar de bem com a União Soviética e com o Ocidente. Finalmente, a guerra entre Israel e o Egipto, em 1972, fez disparar o preço do crude, beneficiando a Arábia Saudita que aproveitou o aumento de receitas para investir fortemente na expansão do Islão em África. Amín, que era muçulmano, apoiou a ideia, passando a receber grandes quantidades de dinheiro. Soube aproveitar as ambições da Arábia Saudita, fazendo saber aos seus amigos que os petrodólares eram indispensáveis para fortalecer o Islão no Uganda, onde os muçulmanos eram apenas 5 por cento da população.

Vamos ficar por aqui, mais ou menos a meio de tanta imundice. Mais um monstro que morre em cama fofa, em paz, depois de uma vida lauta cá na Terra, não obstante o sinistro mal que fez a um povo que não soube ou não pôde libertar-se, a tempo, desse assassino que sobrevivia por força dos crimes que praticava, em larga escala, sem dó nem piedade. E o crime continua a compensar.




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