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«Que vai ser hoje?»

O trabalho jornalístico do Diário do Minho de 22.08.2003 com o título “Antigos estabelecimentos comerciais de Braga resistem ao tempo” trouxe-me, mais uma vez, à lembrança aquele comércio antigo que na sua “pureza” de então já não existe. Hoje em dia, quando passo por uma das poucas mercearias ainda tradicionais olho lá para dentro e… “entro” naquela que já tinha as portas abertas quando eu nasci. Não esquece esse tipo de lojas quem as conheceu, quem nelas aviou ou foi aviado (palavra então usada com o sentido de vender ou comprar mercadorias). Abro um parêntesis para dizer que os significados de “aviar” registados num dicionário moderno (de 1995) não têm qualquer conotação com o contexto atrás referido; é preciso ir a uma edição de 1968 para ver que no contexto em causa a palavra é um brasileirismo com o significado de “vender mercadorias ao seringueiro; fornecer-lhe o que precisa”; fecho o parêntesis.

N/D
28 Ago 2003

As atrás referidas mercearias tradicionais perderam a tal “pureza” talvez por força do progresso e de normas que foram sendo introduzidas em nome da higiene e segurança alimentares.
Sem saudosismo mas com a saudade de quem aviou naquela mercearia (de tal modo que ainda hoje lá vou em sonhos durante o sono nocturno), permito-me rememorar esses tempos e, simultaneamente, dá-los a conhecer à gente mais moça.

Tal como as suas contemporâneas, a “minha” mercearia vendia alimentos, na sua maioria secos (arroz, feijão, massas, açúcar, café, bolachas, etc., acondicionados em cartuchos de papel) e conservas; e líquidos como azeite; e ainda petróleo, lixívia, etc. Tudo isto avulso, ou seja por peso e medida, nas quantidades que os fregueses pediam. Vendia também máquinas e candeeiros de petróleo, alumínios e algumas louças e vidros. Só anos mais tarde começou a vender por exemplo embalagens de peixe congelado. No armazém guardava o “grosso” da lenha e da louça de barro.

O peixe fresco, a fruta e os legumes compravam-se no mercado, a carne no talho. Correndo o risco de pecar por defeito fico-me por aqui nas listagens. Não havia ainda os supermercados, lídimos anteces-sores dos hiper’s.

– «Bom dia, senhora Maria. Então que vai ser hoje?»

– «Pouca coisa. Só quero meio bacalhau, a parte da espinha, que não gosto da do rabo, mais meio litro de azeite nesta garrafa, mas deixe-o escorrer bem, e um litro de petróleo nesta aqui; mas, cuidado, não mas troque. Dê-me ainda meio quilo de arroz mercantil e meio de açúcar amarelo.
Arranje-me também meio litro de feijão vermelho, mas não carregue muito na rasoira para ele ficar bem aviado. E só quero mais um quarto de café do de quinze. (“Um quarto” significava um oitavo de quilo; e “quinze” era um escudo e meio, ou seja três quartos de um cêntimo. Ainda hoje recordo este pedido de café: o tipo era o designado “lote popular”, uma mistura com uma parte de café, duas de grão, duas de cevada e duas de chicória. Havia ainda o lote especial, pelo menos, e o café puro. Duas ou três referências à carestia de vida nessa altura. Um quilo de açúcar amarelo custava cinco escudos (dois cêntimos e meio), de bacalhau mais fraco era a dez escudos e do melhor era a vinte escudos).

Olhe, e dê-me um pirolito para beber agora, que está muito calor».

Aviada a freguesa pelo patrão ou pelo caixeiro, a respectiva conta era então feita em papel pardo ou costaneira; que as máquinas de calcular mais as de registar automáticas haviam de ser novas de tempos muito futuros.

– «Uma pergunta, que não é para hoje: quanto custa um cântaro de barro?»

– «São seis escudos».

– «E não lhe tira nada?»

– «Só se quiser que eu lhe tire a asa».

– «Sempre com graças. E não tem nenhum buraco?»

– «Tem um, que é a boca, para meter e tirar a água».

Enquanto isto, o marçano está a dar a volta diária por casa dos fregueses mais habituais para ver o que eles querem. Sem se sair de casa, era assim que se faziam as encomendas “on line” naquele tempo! Voltado à loja, ele dá conta dos pedidos. «Esta é da D. Maria; quer um litro de feijão do costume, mas disse para passar a rasoura ao de leve; mais um garrafão de vinho Surpresa, que tem aquele pico gostoso; e ainda trezentos gramas de marmelada, duas caixas de fósforos grandes. O senhor Silva quer três quilos de batatas, um pacote de manteiga e um de margarina Chefe, mais uma garrafa de vinho do Porto. O senhor doutor não quer nada hoje».

«Ó rapaz, tu não insististe com os fregueses nem lembraste outros artigos? Assim o negócio vai de mal a pior. […] Pronto, vai lá levar as encomendas. E não te esqueças de entregar os talões. A senhora paga no fim da semana e o senhor no fim do mês». Pés (e mais tarde rodas da bicicleta) a caminho, lá ia o moço completar o seu serviço externo.

Permitam-me terminar com uma anedota que o merceeiro do escrito (por sinal meu pai) contava. Em determinada loja o marçano atendeu um freguês que nada levou; o patrão chamou o rapaz para saber o motivo, ao que o moço respondeu: «Não tínhamos o que ele queria». Acto contínuo, o jovem ouve em jeito de reprimenda: «Nunca se diz ao freguês que não há. Sugere-se sempre outro artigo em substituição». Mais tarde entra outro cliente que pede «um rolo de papel higiénico». Lição aprendida (talvez como o menino Tonecas), o moço responde muito solícito: «De momento está esgotado, mas temos lixa número quatro».




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