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A grande reforma

A palavra reforma continua a andar na boca de muita gente. São necessárias reformas na saúde, no ensino, na justiça, na fiscalidade, na forma como se subsidiam os partidos políticos, na lei eleitoral, na segurança social, etc., etc. Continua a falar-se na necessidade de reformas estruturais e a criticar os que não têm coragem para as fazer. Todavia, quando alguém ousa reformar, como aconteceu no domínio das leis laborais, surge um coro de protestos e de manifestações.

N/D
28 Ago 2003

Reformar quer dizer adoptar uma nova forma. Quer dizer mudança. E a verdade é que, muitos dos que clamam por reformas, não querem mudar. Reformas, sim, mas que toquem exclusivamente nos interesses dos outros. Mas que não exijam que nos desinstalemos nem mexam em hábitos adquiridos. Reformas, sim, mas que não bulam connosco. E o resultado é este: muitos dos que gritam por reformas são dos primeiros a crucificarem quem, de verdade, pretende reformar.
A grande reforma que é preciso ter a coragem de fazer é a reforma das mentalidades. É a reforma interior de cada cidadão. Enquanto isso se não conseguir, reformar nada mais é que, na expressão evangélica, andar a deitar vinho novo em odres velhos ou a pôr remendo novo em vestido velho.

Criaram-se hábitos que é preciso deixar. Um desses hábitos é o da liberdade irresponsável, sem regras nem limites. É o da consciência apurada dos próprios direitos e da reivindicação dos mesmos na ignorância total dos próprios deveres e do respeito pelos direitos dos outros. É o do desrespeito pela dignidade do ser humano e da desvalorização da vida. É o do egoísmo desenfreado onde parece que tudo deve ceder perante mesquinhos interesses individuais. É o do consumismo inconsciente, do endividamento para além dos limites, do viver acima das possibilidades, como se as dívidas de hoje não fossem para pagar amanhã, e com juros. É o da idolatria do ter, do poder e do prazer conquistados a qualquer preço e ainda que seja necessário passar por cima seja de quem for. É o da ausência de princípios a respeitar e de valores a manter. É o de que o mundo é dos reguilas e dos habilidosos para quem as leis não existem e tudo e todos são – espero que erroneamente – subornáveis.

Não pode haver reformas que peguem se os indivíduos não aceitarem a mudança. E a mudança pode exigir sacrifícios e renúncias. E a mudança pode exigir o refreio nos gastos. E a mudança pode exigir uma descida do nível de vida porque irreflectidamente se adoptou um estatuto incompatível com a própria condição. E a mudança pode exigir o respeito de regras que ponham em causa interesses individuais e abatam egoísmos. E a mudança exigirá, por certo, menos forrobodó e mais reflexão; menos pân-dega e mais comedimento.

Não se reforma por decreto, mas por convicções. Não se muda de mentali-dade substituindo a cabeça que cada um traz sobre os ombros mas fazendo uma verdadeira e higiénica lavagem aos cérebros e aos corações, procurando que se gere a convicção de que é preciso respeitar a verdade e a justiça; construir uma paz baseada no respeito pela dignidade e pelos legítimos direitos dos outros e não no poder dos mais fortes; praticar uma tolerância que signifique respeito pelas opiniões e pela maneira de ser dos outros sem que isso tenha como consequência a renúncia aos próprios princípios e convicções e a despersonalização seja de quem for. Que nos corações das pessoas o ódio dê lugar ao amor; o egoísmo dê lugar à solidariedade; a vingança dê lugar à compreensão; a mansidão substitua a violência.

A grande reforma, a principal reforma que é urgente ousar fazer exige um grande esforço de educação, onde podem desempenhar um papel fundamental as televisões que temos, que em muitos casos poderiam servir realmente a comunidade ou servir muito melhor. Exige a adopção de novas atitudes. Exige que se dêem a conhecer modelos de comportamento que o bem comum recomenda sejam imitados mas que interesseiramente são escondidos.




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