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A Escola e a Família – suas megacompetências

4 Os níveis da indisciplina na sala de aula e seus factores
Após a análise, embora sinóptica, do conceito de indisciplina e das ópticas que os principais agentes (discentes, docentes e pais) revelam acerca deste fenómeno, convém reflectir sobre os seus níveis existentes na própria sala de aula, com o objectivo de facilitar a definição das estratégias de remediação mais adequadas ao seu contexto.

N/D
27 Ago 2003

Deste modo, os comportamentos desajustados podem, genericamente, ser perspectivados a três níveis. No primeiro, estão incluídos aqueles a que é imputado um carácter “disruptivo” em virtude da perturbação que causam ao bom funcionamento da aula. Por seu turno, os comportamentos que traduzem, essencialmente, conflitos entre pares constituem o segundo grau. Finalmente, o terceiro nível é composto por comportamentos que, de algum modo, põem em causa a autoridade e o estatuto do professor.

Julgo que ter em conta estes níveis, ajuda a delimitar os problemas, obriga a contextualizar os incidentes, permite uma melhor identificação dos factores que lhes estão subjacentes e confere uma maior plausibilidade a determinadas hipóteses explicativas em detrimento de outras.

a) Primeiro nível: a «perturbação do bom funcionamento da aula»

Como facilmente se depreende, a este grupo pertencem os comportamentos de infracção a todo um conjunto de regras elementares destinadas a criar as condições de ensino-aprendizagem na sala de aula.

A maioria dessas regras faz parte da «cultura da escola» e, por se crerem interiorizadas após o ensino básico, raramente são explicitadas pelo professor, a não ser no «discurso ritual» do início do ano, ou como uma modalidade possível de admoestação. Outras há que serão da iniciativa de certos docentes que acrescentam às normas da instituição algumas de carácter idiossincrásico.

O alvo destas regras é não só a comunicação (proíbe-se «interacções horizontais» de natureza verbal ou não-verbal, que não tenham a ver com a economia da aula), mas também o corpo (que se deve manter dentro de alguma contenção e imobilidade, no espaço que lhe é reservado) e as tarefas (a executar numa certa sequência, em devido tempo, exigindo determinados materiais ao cuidado do discente, etc.).

De algumas investigações conclui-se a constatação aduzida por qualquer observador de uma aula que regista, pelo menos, um grande número de comunicações «clandestinas» («paralelas» e extemporâneas), gestos, olhares, posições e deslocações que o professor em causa, com maior ou menor tolerância, toma a iniciativa de corrigir ou punir; estes comportamentos têm uma amplitude que abrange praticamente todos os alunos (os mais e os menos empenhados, os mais novos e os mais velhos), ainda que com uma frequência desigual, verificando-se de forma intermitente, de tal modo que o discente interactua «clandestinamente» com os pares enquanto acompanha o docente (quando mais não seja, para o vigiar) e vai realizando a tarefa.

A frequência destes comportamentos, no entanto, varia consoante a turma, o professor e as actividades curriculares. Ela é maior em turmas pouco coesas, divididas em subgrupos de interesses desiguais e em conflito, liderados por alunos em franca oposição às exigências escolares, bem como em aulas com professores de fraca assertividade, incapazes de fazer valer a regra, oscilando entre momentos de grande permissividade e algum autoritarismo (a que recorrem como último recurso) e demonstrando incompetência enquanto líderes e gestores da «participação social».

Por isso, ao falar de actividades curriculares enquanto factores deste nível de indisciplina, referencio uma grande variedade de aspectos que sintetizo: estes comportamentos são mais frequentes, quando o ensino assenta na passividade do aluno, quando as actividades são triviais e aborrecidas (no termo das quais o discente não tem a sensação de ter feito avanços na aprendizagem) quando os alunos não descobrem nem o interesse nem o encanto dos conteúdos administrados, quando os discentes se apercebem das falhas do docente enquanto líder das actividades, não minimizando a sua ambiguidade (linguagem inacessível, discurso fracamente estruturado, erros e incompetência na matéria) nem contrariando os riscos que elas oferecem para o aluno (abandono deste à sua sorte na execução das tarefas, na compreensão dos conteúdos e na preparação das avaliações formais).

Tendo em conta estes factores, que funções pode desempenhar a indisciplina, a este nível?
Sinteticamente, poder-se-á dizer que ela (sem assumir declaradamente as funções de contestação, mas sobretudo as de proposição, evitamento, obstrução e teste) consiste numa mensagem para que se altere o estado de coisas; dito de outro modo, ela é uma manifestação do contrapoder do aluno, de modo a que seja negociado, entre ele e o professor, um «acordo de trabalho» que dê origem a situações mais favoráveis: aulas onde se aprenda (a maioria dos alunos quer aprender e transitar de ano) mas que sejam mais divertidas, menor afectação da dignidade de cada um, menos fadiga e mais atenção aos ritmos da criança e dos jovens, melhores condições de convívio e de recreio, etc.

(O artigo seguinte já saiu no DM do passado dia 25 de Julho)

(Continua nos próximos números)




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