Fotografia:
Como acabará a guerra no Iraque?

Antes de se iniciar a última guerra no Iraque, muitas vozes se levantaram contra a intervenção das chamadas “forças da coligação”, com a censura ou a recomendação de que não se envolvessem no conflito sem que houvesse um mandato claro das Nações Unidas para o fazer.

N/D
26 Ago 2003

Fazendo ouvidos de mercador a tantas opiniões discordantes, a luta começou com a participação maioritária dos Estados Unidos e da Inglaterra, no que foram acompanhados com mais modéstia pela Austrália. E também com a concordância tácita ou mais declarada de alguns países, de entre os quais Portugal.
Infelizmente, as vozes dos políticos e dos homens de Estado não obtêm o eco e a adesão de muitos cidadãos. Sem se querer deteriorar ainda mais o fraco conceito que eles merecem – ou deviam merecer – aos cidadãos, a sua palavra, as suas atitudes e as suas decisões surgem envoltas num manto escuso de suspeições. Dir-se-ia que a actividade política cheira sempre a água inquinada, mesmo quando as intenções de quem participa na vida pública seja rodeada dos melhores e mais sérios propósitos.

Nesta perspectiva, as posições assumidas ostensivamente pela França e pela Alemanha – dois dos países mais fortes da União Europeia -, se bem que respeitáveis e legítimas, não conseguiram conquistar a confiança integral de quem as viu tomar, porque os interesses petrolíferos da França no Iraque e as lutas eleitorais do actual chanceler da Alemanha, que necessitava dos votos precisos para poder continuar no poder, tingiam de dúbias cores a diafaneidade das escolhas feitas e a pureza dos ideais proclamados.

Entre nós, a opção de apoio assumida pelo actual governo foi certamente criticada pela oposição, desde o ruidoso e contestatário de sempre Bloco de Esquerda, passando pela frontal repulsa manifestada pelo cada vez mais encarquilhado Partido Comunista, ao vigor oratório in crescendo do Dr. Ferro Rodrigues. Contudo, o cidadão médio, que já se habituou a que a oposição nunca possa ou até deva concordar com quem mantém o poder, encolheu os ombros e, com os seus botões, ia considerando que se os que agora não mandam mandassem seriam capazes de defender o que o governo defendia. Tudo dependeria das conve-niências conjunturais.

O nosso mundo conserva, felizmente, outros padrões de referência, que, sob o ponto de vista ético, surgem aos olhos de quem não fomenta preconceitos como modelos convincentes e de rectidão intocável. Um deles é o actual Papa João Paulo II, alquebrado sob o ponto de vista físico, mas lúcido e brilhante quando escreve documentos do foro religioso, ou quando toma atitudes desassombradas perante os poderosos desta terra. Fez ouvir a sua voz. Ninguém lhe discutia as intenções, ao tentar, tanto quanto era capaz, demover os senhores bélicos a evitar o conflito armado. Incitou-os a seguir a linha do diálogo e da paz, muito mais consentânea com a dignidade da racionalidade da natureza humana. Não foi então ouvido, avisando claramente que se a guerra é uma via que se sabe quando e como começa, os seus resultados nunca são previsíveis, pelo que ninguém é de dizer quando e como é que ela acaba.

Depois da fulgurante vitória das forças da coligação, começam agora os problemas a surgir. Diz o povo: “O primeiro milho é dos pardais”. Neste momento, já vemos os vencedores a reclamar mais apoio das Nações Unidas, porque os distúrbios e a insegurança transformaram-se no pão nosso de cada dia.

O Iraque passou duma ditadura de uns poucos, ferozes e implacáveis, para a desordem endémica, onde a presença militar dos vencedores não se mostra capaz de solucionar os problemas e de evitar que os seus próprios soldados sejam diariamente sacrificados por atentados letais.

Oxalá a paz se alcance rapidamente e as palavras de prudência de João Paulo II sirvam de estímulo célere para que não corram mais rios de sangue inútil, injusto e desmedido na velha pátria natal de Abraão.




Notícias relacionadas


Scroll Up