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Nuno, um simples campeão

O comércio e o dinheiro contaminaram praticamente todas as modalidades desportivas, a ponto de se ter por vezes a impressão, se não mesmo a certeza, de que as vitórias não correspondem necessariamente a quem é melhor, mas a quem tem mais poder de “fogo”. Mas nem todas as modalidades são contaminadas do mesmo modo ou em igual medida. O ciclismo, por exemplo, é um desporto extremamente interessante, porque permite tanto o jogo de equipa como a revelação de capacidades individuais, por vezes verdadeiramente fora de série pelo que supõem de treino persistente, de auto-disciplina, de espírito de grupo, de resistência psicológica.

N/D
25 Ago 2003

Tornamos a ver isso na recente Volta a Portugal em Bicicleta, que foi, praticamente desde o primeiro dia, uma prova emocionante, muito disputada, com performances dos ciclistas verdadeiramente empolgantes.

Acompanhar o modo como as etapas foram sendo vencidas deu para aprender muitas coisas. Desde logo, deu para mostrar que, ao contrário do que se dizia, e do que tem ocorrido nos últimos anos, há uma nova geração de corredores em Portugal, dotada de talentos que a coloca ao lado dos melhores. Depois, a competição entre as equipas não impede que os ciclistas acamaradem, com um fair play extremamente salutar. Dentro de cada equipa são obrigatórios os actos de entreajuda. Todavia, e como se viu pela equipa do vencedor, isso não impede que um dos seus membros, que não o favorito, possa destacar-se e mostrar o seu valor, desde a célebre e terrível etapa da Torre.

Finalmente, o exemplo do vencedor, Nuno Ribeiro. Foi unânime o reconhecimento de que mostrou um elevadíssimo nível, não apenas físico e desportivo, mas igualmente humano. Teve a glória de vencer na Serra da Estrela, onde poucos se afirmam. Teve, logo no dia seguinte, de enfrentar quase sozinho o fortíssimo ataque da principal formação adversária, que lhe custou a camisola amarela. Quando muitos pensavam que não teria a tenacidade bastante para voltar à liça, foi de novo buscar a “amarela” na Senhora da Graça, não sem antes ultrapassar, com a ajuda dos companheiros, um percalço que o deixou para trás do pelotão. Finalmente, teve o mérito de fazer um brilhante contra-relógio final. Sempre com uma simplicidade assinalável, um leve – quase ingénuo – sorriso estampado no rosto, sem que as “peneiras” lhe subissem à cabeça. Reconhecendo o valor próprio, sem esquecer o contributo dos colegas, do treinador e da família.

Ganhar assim dá alegria, não apenas aos conterrâneos, como é o meu caso, mas a muitos portugueses que vêem e vibram para lá do futebol.




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