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Angola, uma realidade africana

Angola passou, e continua a passar, por períodos conturbados após se tornar independente, em 11 de Novembro de 1975, como consequência de fenómenos perturbadores de uma independência pouco consolidada, devido a factores de índole diversa, internos e externos, entre os quais se salientam os de natureza política, social e económica.

N/D
25 Ago 2003

É certo que toda a problemática anterior à revolução de 25 de Abril foi ignorada ou mal compreendida pelos responsáveis políticos portugueses, no referente às profundas mudanças que se estavam a verificar em toda a África Negra, como consequência da Segunda Guerra Mundial, onde milhares de combatentes negros tiveram ocasião de observar, descobrir e contactar “in loco” as civilizações europeia e asiática.
Após o segundo conflito mundial duas potências mundiais procuraram influenciar ou dominar, em parte, alguns países africanos independentes ou colónias, tendo em vista uma geoestratégia ideológica e económica, aliada a uma influência de domínio militar.

Aliás os interesses económicos americanos e soviéticos, países com ideologias diferentes, pautavam-se por aspirar ao controlo de regiões potencialmente ricas e pouco exploradas, tendo em vista ampliar os seus recursos geológicos estratégicos e criar tensões políticas perturbadoras do ordenamento mundial resultante da segunda guerra mundial.

As preocupações americana e soviética em meados do século XX, depois de 1957, inscreveram-se no quadro da Guerra Fria, na obsessão de que o vazio criado pela retirada dos países colonizadores europeus viesse originar uma zona de baixas pressões que atraísse essencialmente o vento ideológico que soprava de Leste.

Neste contexto tiveram acção significativa alguns grupos protestantes, cujos cidadãos oriundos da América do Norte ou de países do Norte da Europa, se instalaram com missões, hospitais e escolas, no interior das colónias, em locais mais isolados, com vias de comunicação mais difíceis e onde as populações locais tinham carência de assistência, principalmente nas áreas da saúde e da educação.

Esta foi a forma destes grupos alertarem os autóctones contra a política colonial dos países colonizadores, que no caso português não se abriu atempadamente ao exterior e era, por vezes, excessivamente conservadora. Esta forma de administração colonial foi impeditiva do acesso atempado à livre escolha dos países ocupados, tendo limitado o vínculo futuro a um desenvolvimento racial harmonioso, após períodos mais ou menos conturbados de ocupação, evangelização e desenvolvimento.

Alguns países africanos e asiáticos foram fortemente influenciados pelo expansionismo ideológico soviético, depois da revolução bolchevique de 1917.

Os países comunistas, através da concessão de bolsas de estudo e outros meios culturais, começaram a formar quadros africanos, que tiveram grande influência sobre os ventos de emancipação política que varreram África.

Após a independência e com a libertação sócio-política, a presença soviética afirmou-se, em alguns países africanos, de uma forma muito nítida, ocupando em certas situações, o vazio deixado pela retirada voluntária, ou forçada, do país colonizador.

As doutrinas de apoio anticolonialista expressas camufladamente e com uma vertente emancipadora, acabavam por progressivamente se transformarem em mais valias de natureza estratégica e económica, que, em muitos casos, conduziu ainda mais ao subdesenvolvimento de alguns países.

Quem conheceu África em diversos períodos da segunda metade do século XX e acompanhou a sua evolução histórica e sócio-económica, verificou uma realidade bem diferente. Por trás do apoio e da ajuda, estava bem vincado o interesse de exploração em benefício próprio. Isto reflectiu-se principalmente em relação aos recursos geológicos e marinhos, a troco de assistência técnica e militar, mediante a venda de todo o tipo de equipamento e de armamento, quantas vezes obsoleto, o que conduziu a um grau de endividamento progressivo a curto e médio prazo.

Algumas das grandes potências procuraram, e procuram, através da sua influência político-militar, extrair todo o tipo de recursos, principalmente os geológicos, em países com reservas apreciáveis e com subsolo pouco explorado, procurando assim constituir stocks e preservando as suas reservas estratégicas.

No caso concreto de Angola as enormes potencialidades do subsolo, principalmente de hidrocarbonetos e de diamantes, originaram apetências neo-colonialistas de quadrantes político-económicos diferentes, que serviram para financiar a “máquina de guerra”, numa luta fratricida sem limites e sem justificação.

Angola um dos países potencialmente mais ricos do mundo, poderia atravessar uma época notável de desenvolvimento e bem-estar social.

As duas “jóias da coroa” – petróleo e diamantes -, constituem recursos apreciáveis e ainda por definir em toda a extensão, capazes de criar um ciclo extraordinário de investimentos, gerar meios de produção e servir de mola sócio-económica para a reconstrução do país, cujo povo martirizado há quase três décadas, bem merecia.

Os principais beneficiários desta situação são os “Senhores da Guerra”, alguns quadros superiores militares, alguns empresários ligados ao aparelho político e uma pequena percentagem de privados inseridos no regime.

Angola e as suas gentes não mereciam a guerra fratricida, que conduziu em grande escala à destruição das suas infra-estruturas, com a maioria das vilas e das cidades reduzidas a escombros. É evidente a ausência de água potável e de saneamento, com milhares de prédios em ruínas ou sem as condições mínimas de habitabilidade e sem possibilidade de recuperação.

Apesar das fronteiras artificiais e da diversidade étnica e ainda da mentalidade e da cultura do povo angolano, Angola tem de ressurgir do caos para a reconstrução, que será gigantesca e morosa, mas as suas enormes potencialidades e a imensidão do território, são garantia para a recuperação económica deste grande país, que têm meios para renascer da destruição, assim o queiram o Governo, as diversas facções políticas e o povo angolano.

Será um processo complexo, com tolerância e concórdia, onde a cooperação dos países amigos e de boa vontade poderá desempenhar um papel importante, com o apoio fundamental e necessário da Igreja angolana.

Os quadros angolanos, no interior e no exercício do país, são a garantia para esta tarefa gigantesca, mas aliciante.

O recurso à mão-de-obra especializada de outra origem e, se possível, de preferência portuguesa, apesar de todas vicissitudes do passado colonial, com respeito mútuo e sem objectivos neo-colonialistas, podem e devem contribuir para a desejada e necessária recuperação da sua ordem económica e social do país.

É altura de parar, meditar e partir para um trabalho hercúleo, pois não faltam meios para criar riqueza e relançar o país, desde que haja fé, tolerância e estabilidade político-social para levar em frente e vencer as enormes batalhas que se colocam a Angola, povoada de gente boa e que deseja ardentemente viver em paz, para procurar esquecer o sofrimento, o martírio, a morte pela fome e doença e o massacre de milhares e milhares de angolanos, como consequência da cegueira e intolerâncias dos seus dirigentes políticos e militares.




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