Fotografia:
Estudo sobre os filhos das famílias monoparentais

Não há muito tempo, tive oportunidade de ouvir, em viagem longa de autocarro, num banco à frente do meu, uma animada conversa entre dois universitários, que expendiam com convicção e certeza absolutas, a teoria defendida por um assistente duma das suas disciplinas – eram alunos de Psicologia, segundo vim a apurar depois – sobre a bondade e a perfeita inocuidade da educação dos filhos das chamadas famílias monoparentais, onde incluíam no mesmo saco os das mães solteiras e os que vivem habitualmente com a mãe, em virtude de ter havido uma separação dos pais. E concluíam sempre com a expressão: «Tudo isto é óbvio!»

N/D
24 Ago 2003

O fundamento da sua segurança residia, fundamentalmente, na premissa de que uma família tradicional unida se sujeitava às diatribes mais ou menos ruidosas e quezilentas das discussões e desacertos inevitáveis dos pais durante toda a vida do casal, motivando traumas e recalcamentos virulentos nos filhos, que só um tipo de educação repressiva mantinha calados, embora, de acordo com o que a ciência ensina, mais tarde ou mais cedo, de forma irrevogável e perniciosa, haviam de vir ao de cima como um pedaço de cortiça que se deita à água presa a uma pedra, logo que os liames que a uniam apodreciam e a libertavam.
A um certo momento, descobrindo a minha condição sacerdotal, um deles fitou-me com certa compaixão, e disse-me: «Claro que o senhor não está de acordo com o que nós estamos a conversar, porque é obrigado a defender as doutrinas religiosas e dogmáticas da sua fé».

Com serenidade, respondi-lhe que não me sentia constrangido a defender o que quer que fosse contrário à minha consciência. Expliquei-lhes também que me parecia que o que falavam entre si tinha raias de dogmatismo acrítico.

Não conhecia o assistente que os inspirava, mas ficava profundamente estupefacto de que alguém, como eles, formados num tipo de ciência que, hoje em dia, recorre muitas vezes – e tanto quanto lhe é possível -, ao método experimental para fundamentar as suas conclusões, apresentassem como causa da sua certeza apenas uma exclamação: «Tudo isto é óbvio!»

Para mim, nada do que afirmavam me parecia óbvio e se defendia, efectivamente, que os filhos deviam nascer numa família estável e não monoparental, que o pai e a mãe deviam educar em conjunto a sua prole durante toda a vida, poderia aduzir razões muito sérias, baseadas umas na natureza racional do ser humano e outras em dados da minha experiência longa de professor de várias gerações de alunos.

E acrescentei: «Digo-lhes com inteira franqueza e com profunda amargura: nunca encontrei nenhum filho duma família monoparental ou dum matrimónio desfeito sem traumatismos complexos».

Olharam-me com cândida sobranceria. E depois desvalorizaram as minhas achegas: «É a sua opinião, baseada em conceitos metafísico-religiosos e numa experiência pessoal subjectiva».

Perguntei-lhes: «E a vossa, em que se fundamenta?» Responderam-me: «Senhor padre, somos alunos de Psicologia…». Nada mais acrescentaram. Enfiaram-se de novo no seu banco em posição normal. E eu continuei a minha viagem no meu, como se nada se tivesse passado. Saíram na paragem seguinte, concedendo-me um vago aceno de mão. E eu fiquei a remoer com os meus botões a sua frase: «Tudo isto é óbvio!»

Se algum destes meus companheiros de transporte tiver oportunidade de ler o que em seguida apresento aos leitores, gostaria de lhes observar que diz respeito a um estudo publicado na prestigiada revista médica, “The Lancet”, datada de 25.01.2003. Para o efeito, vão os meus agradecimentos ao Dr. Angel García Prieto, psiquiatra espanhol meu amigo, pessoa particularmente interessada pela cultura portuguesa, que mos facultou.

Num estudo realizado na Suécia, ao longo de dez anos, foi acompanhado cerca de um milhão de rapazes e de raparigas, 65.000 provenientes de famílias monoparentais (nas quais se incluem as de pais separados) e 921.000 de famílias tradicionais ou unidas. Não se socorreram de inquéritos, mas de dados obtidos em clínicas e hospitais, pelo que este estudo é considerado de elevada significação e muito bem estruturado. Extraíram-se as seguintes conclusões:

a) doenças psiquiátricas: 2,1 vezes mais elevadas nas raparigas e 2,5 vezes mais elevadas nos rapazes das famílias monoparentais do que, em amostragens idênticas, em famílias tradicionais;

b) tentativas de suicídio: 2 vezes mais elevadas nas raparigas e 2,3 vezes mais elevadas nos rapazes de famílias monoparentais do que, em amostragens idênticas, em famílias tradicionais;

c) recurso ao álcool e às drogas: 3,2 vezes mais elevado nas raparigas e 4 vezes mais elevado nos rapazes de famílias monoparentais do que, em amostragens idênticas, em famílias tradicionais.

Como observações adjacentes, sublinharam que aqueles que consideram circunstanciais e de resultados passageiros as alterações de conduta e emocionais resultantes do divórcio não apresentam dados tão significativos sobre as suas consequências como os deste estudo, baseado em factos incontroversos e reais.

Por outro lado, asseveram que os distúrbios dos filhos provocados pela separação do pai e da mãe não se devem, como alguns queriam, à falta de recursos económicos como causa dominante, uma vez que só 10 por cento das mães separadas se encontram, na Suécia, contempladas pela taxa de pobreza.

Pelo contrário, entendem que a pouca dedicação de tempo aos filhos e a falta do modelo paterno – principalmente nos varões – são razões bastante mais determinantes. Francamente, e sem querer polemizar, apetece-me dizer: «Tudo isto é óbvio!»




Notícias relacionadas


Scroll Up