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Espanha envelhece!

O El País do passado dia 10 escolhe para tema de fundo, no caderno “Domingo”, o problema candente da quebra da natalidade, num esclarecido texto sob o título “España envejece”. Infelizmente que o problema de uma sociedade de idosos não é só da Espanha, mas de Portugal também, onde a inscrição nos cursos superiores parece sofrer quedas surpreendentes já para o próximo ano, a dar crédito ao exíguo número dos candidatos que terminaram o décimo segundo ano. O mal afecta ainda o chamado clube dos ricos ou seja todos os países da União Europeia. É surpreendente o contraste com os países do terceiro mundo onde o surto da natalidade não preocupa os progenitores.

N/D
22 Ago 2003

Aí felizmente não há abortos provocados. E se fosse possível economicamente generalizar-se o uso dos preservativos, certamente que o objectivo imediato não seria o abrandamento da taxa de natalidade mas sim a prevenção da sida – a moléstia de fins do século passado que dizima milhares e milhares de adolescentes e jovens, por dia, com o perigo iminente dessa terrível doença ser sexualmente transmissível aos nascituros que expiam, assim, pecados alheios. Aqui a luta passa pela travagem do aumento progressivo da natalidade. A própria ONU pede que se invista em programas para reduzir a natalidade, abrindo uma “janela demográfica” ao crescimento económico. O UNFPA fornece quase US$ seis biliões anuais para programas de saúde reprodutiva, incluindo as mães e os recém-nascidos, prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis e controle da natalidade.
“Gente, pobreza e possibilidades” sustenta que levar em conta as necessidades da população é factor crucial para conseguir os objectivos da Cúpula do Milénio da ONU, que inclui reduzir a pobreza mundial a metade, e deter a expansão do HIV/Aids até 2015. Na Europa ocidental, o preservativo é egoisticamente usado para evitar o nascimento de filhos, não obstante o conhecimento generalizado de que a classe activa trabalhadora tende desde há muito a diminuir assustadoramente. E nos debates sobre a legalização ou não do aborto, aparecem sempre à frente os burgueses (os ricos e mais esclarecidos, os que não trabalham) a reivindicarem a legalização do aborto.

O equilíbrio populacional exige uma fecundidade à volta do nível da substituição da mortalidade, ou seja, mais de dois filhos por mulher fértil. Presentemente na Espanha é de 1,26, na França 1,90. E a média na EU é de 1,47. De 1976 a 2002 a taxa de natalidade foi de 10,14 e a de mortalidade de 8,92, por 1.000 habitantes. Mas em 1976, a taxa de natalidade foi de 18,76 e a de mortalidade de 8,28.

Aquele diário refere que, na Espanha, a pirâmide demográfica começa a abrir fendas. Apesar de se manter, por agora, o número de habitantes é inevitável, no futuro, manter este equilíbrio se não vier a aumentar espectacularmente a taxa de fecundidade (a menor da Europa) e não se mantiver um fluxo continuado de imigrantes. Ainda que se mantenha o progressivo envelhecimento da população.

Menos jovens, mais idosos e menos activos para proverem as suas necessidades: educação, saúde, sanidade e segurança social, etc. Mas a adaptação dos imigrantes é duvidosa. Aos eventuais problemas linguísticos acrescem outras circunstâncias ligadas à resistência por parte de muitos cidadãos autóctones que repelem a concorrência. O Barómetro do CIS, correspondente a Maio de 2003, refere que 53 por cento (pc) dos espanhóis estão convencidos que fazem falta trabalhadores estrangeiros, desde que cheguem com contrato, mas que mais de 58 pc relaciona imigrantes com insegurança, e cerca de 68 pc acredita que são tratados com desprezo, 1,7 pc com agressividade, 45,5 pc com desconfiança, e indiferença 10,6 pc.

Também conta a resistência ao transporte: Um imigrante de nome Santoutou Diakite, de 45 anos, chegou a Espanha em 1995. Sua mulher, Toutouba, de 35 anos, vem juntar-se ao marido quatro anos depois. Tiveram dois filhos já em Espanha, um casal, hoje a menina de sete meses e o menino de 4 anos. Só trabalha ela num serviço agrícola, mais indicado para mulher. É único salário de 30 euros, por dia, que entra em casa, ganho pela mulher. Levanta-se de madrugada para viajar de autocarro até ao posto de trabalho que dista 130 quilómetros. O marido fica em casa para cuidar das crianças. Claro que em tais condições já decidiram ambos não quererem mais filhos. Tal decisão está de acordo com a opinião dos sociólogos de que os imigrantes que chegam com hábitos sociais e culturais muito arreigados e diferentes terminam por se adaptar paulatinamente aos do país de acolhimento, reduzindo, por exemplo, a taxa de fecundidade. O equilíbrio é difícil e passa por um fluxo continua-do e notável de estrangeiros, cerca de 160.000 por ano. Mas para isso torna-se necessário mentalidades adequadas à inserção social dos imigrantes e adequadas medidas também, por parte do Estado, no sentido de facilitar essa inserção. E se é essa a melhor solução, ainda bem: os ricos que paguem a crise.




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