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Discrepâncias entre “rural” e o “urbano” em Portugal

A recente vaga de incêndios florestais trouxe à luz da consciência nacional que havia um Portugal rural, florestado, esquecido e desabitado, mas com algumas pessoas que ainda resistiram à debandada para as cidades ou para o estrangeiro… Depois de mais de três semanas a fio vimos imagens apocalípticas, lunares e dum mundo que o sindicalismo urbano tanto nos tenta fazer esquecer… tais são as “suas” reivindicações com cobertura televisiva!

N/D
22 Ago 2003

Esse “Portugal rural” foi lembrado pelas piores das razões. O primeiro-ministro, o Presidente da República e demais políticos urbanos ficaram chocados, tentaram desculpar-se, encontrando razões e trocando acusações de circunstância.
Tal como dizia um voluntário de uma Igreja evangélica, tivemos a sensação da apatia geral, enfastiada com a repetição escusada de imagens e declarações (algumas de mau gosto) a roçar uma certa psicose colectiva. É um facto que os bombeiros tiveram um papel destacado, houve uma relativa descoordenação de forças, mas o que esta vaga de incêndios trouxe à liça foi uma nítida discrepância entre esse interior profundo e um litoral protegido, aburguesado e acomodado.

Nota-se um certo incentivo à deslocação das pessoas do interior para o litoral e/ou cidades: melhores infra-estruturas, habitação mais acessível (sem bem que nem sempre de qualidade e em bom preço), meios de educação e cultura (com estádios de futebol a cativar mais a populaça), condições higieno-sanitárias mais adequadas… e até um investimento religioso (dizemo-lo na dimensão católica) mais cuidado, atento e permanente.

Apesar de tudo há resistentes – alguns a viverem por momentos nessas cidades e vilas, mas sentindo uma discriminação latente – que continuam a povoar esses três quartos do território, sendo apenas um possível terço da população. Há quem aposte na criação de postos de trabalho, na fixação dos mais novos através de subsídios ao casamento e à natalidade, pela beneficiação em matéria de impostos, na continuidade de paróquias ao arrepio de tendências mais secularizantes. Por outro lado, há erros que continuam a ser cometidos: abolição de barracas sem olhar à proveniência dos realojados; legalização de bairros e construções manifestamente aberrantes, mas que darão votos em próximas eleições autárquicas; sobreposição de interesses, nalguns casos eivados de um certo ruralismo não civilizado, que geram conflitos sociais e problemas de justiça; questões de integração não conseguida por manifesta desadequação dos participantes, tanto por lacunas culturais como por abandono de uma certa prática religiosa que não acompanhou os rendimentos económicos, reais ou fictícios.

Estes dois Portugais – o dito urbano e o pseudo-rural – têm muito a aprender com a realidade e a aprendizagem de outros países europeus. Assim:

– a comunicação social precisa de saber informar sem explorar, explicar sem deturpar, mostrar sem miserabilizar, aproximando, cada vez melhor, mentalidades, culturas e perspectivas;

– a Igreja Católica precisa de saber gerar – como tem estado a acontecer no recente socorro às vítimas dos incêndios – mais fraternidade, solidariedade e caridade entre as dioceses, cidades/vilas ou paróquias do interior e do litoral, fomentando a geminação e/ou a partilha, tanto de pessoas como de bens, entre umas e outras;

– na medida do possível é urgente colocar linhas de reflexão que aproximem mais o Portugal “rural” do Portugal “urbano” tão ficticiamente afastados, mas que as festas de Natal e dos santos “da terra” se encarregam de diluir.

Está na hora de assumir a ruralidade de tantos citadinos de torna-viagem. Basta de arranjos pseudo-políticos e mesmo arreligiosos de ocasião!




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