Fotografia:
O telemóvel

Meu caro n.º 964… (e tal):
Como sabes, nunca gostei de ti e, muito menos, das cargas que me obrigas a fazer, seja de energia, seja de conta bancária.

N/D
21 Ago 2003

Foi preciso ver um teu parceiro, na mão de tanta gente, para te dar a confiança de andares na minha companhia.

Contudo, não abuses, nem me deixes ficar mal.

Reconheço que és, no momento, um dos objectos de maior estima e procura, em todo este mundo da telemovelia contemporânea.

Apesar de tudo, nunca te darei a con-fiança, nem a estima que o Ferro Rodrigues concede ao seu.

Eu sei que não há rapaz que se preze, nem moça namoradeira, afeita às gaiteirices da moda, que prescinda dos teus serviços, seja para um «bate-papo» foleiro, à mesa de um café, seja para curtir a mais íntima e mais resguardada conversa do prostíbulo feminino.

Sei que até há velhotes que, apesar da cera envelhecida que lhes entope o canal auditivo, se dão ao prazer de, goelas a pino, gritar recados e formular perguntas, com tal força e jeito, que não sei para que querem o aparelho.

És uma espécie de «faz-tudo», pois tanto dás recados públicos, como tomas conhecimentos domésticos; tanto envias mensagens amorosas, como registas desavenças paternais; tanto solicitas mercadorias de balcão, como reclamas pagamentos no «guichet».

Dizem-me que, em Lisboa, há a «Rua do Fala-Só».

Pois, mercê da tua presença, hoje em dia, todas as ruas e avenidas, praças e largos deste palrador país, são «Ruas do Fala-Só».

Antigamente, só se viam pessoas a gesticular e a falar sozinhas, quando saíam da Repartição das Finanças, das Câmaras Municipais e de outros locais de forçados pagamentos.

Agora, são tantas as pessoas, a falar e gesticular sozinhas, pelas ruas deste país, que a gente acha que vive num universo de loucos, a falar e a mandar recados para o mundo do além.

Uns, desconfiados, guardam-te em coldre de couro; outros, profissionais da fala e amigos da escuta alheia, andam contigo quase pendurado nos lóbulos das orelhas; ainda outros, utilizam-te na condução viária, para arrelia da polícia e transtorno do trânsito.

Não sei se estás, sob escuta oficial.

Em caso afirmativo, defende-te como puderes, porque eu não tenho tempo, nem pachorra para aturar coca-bichinhos.

Como tens a faculdade de registar mensagens, aproveita a ocasião e, na devida altura, manda os escutadores passear para a borda da Meda, que é uma terra bem portuguesa, onde nos arrebaldes as amendoeiras deleitam a vista do turista.

Como fiel companheiro, exijo-te lealdade e que, quando fores escutado, me avises.
Nessa altura, conceder-te-ei reforma antecipada e descanso perene.




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