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Batatas, tens tu nos olhos

Conta-se, em jeito de anedota, na região de Sesimbra, usando mesmo a linguagem típica: Num Inverno mais rigoroso em que o mar estava feio e não tinha havido peixe nem para comer, um pescador foi ao campo (freguesia vizinha) pedir qualquer coisa para matar a fome. Abeirou-se de um camponês e pediu-lhe umas batatas e umas couves. Este deu-lhas, pois o ano até tinha sido frutuoso. No Inverno seguinte inverteram-se os papéis. Ao agricultor queimaram-se, com a geada, as coisas do campo. Então, abeirou-se do pexito (nome dado ao natural da vila e, normalmente, pescador) pedindo-lhe uns peixes para matar a fome, invocando-lhe o favor anteriormente atendido. Para lhe avivar a memória recordou-lhe as batatas dadas, ao que o pescador ripostou: «Batatas, sôce, tens tu nos olhos»! Para significar que o favor já tinha esquecido…

N/D
20 Ago 2003

De facto, ao vermos certos episódios da nossa vida nacional podemos rever-nos na observação do pexito ao camponês:
– Quando os incêndios chamuscam os intervenientes que deveriam apagá-los;

– Quando se ouve reclamar por mais ajuda às vítimas dos fogos florestais, se não foram dadas condições de evitar a tragédia;

– Quando se explora a natureza – tanto florestal como marinha – não salvaguardando os recursos

– Quando vemos crescer a desigualdade entre sectores económicos (empregadores e operários),
descurando a proveniência das fortunas;

– Quando se compensa a preguiça – mesmo ao nível eclesial – em desfavor de alguma inovação pastoral;

– Quando vemos a promoção de projectos pessoais (nessa índole salvadora desgraçadista) eivados de protagonismo neo-renovador;

– Quando sentimos crescer a sensação de que o país está a salvo de um certo pessimismo – económico, social ou político – sem que se vejam resultados de verdade…
Então temos de dizer: batatas, tens tu nos olhos!

Urge, por isso, proclamar a cultura da verdade, sem medo de ofender pela denúncia, num profetismo construtor da solidadariedade entre pessoas, grupos, povos ou nações. Com efeito, os cristãos – particularmente por ocasião do “Dia das Migrações” – têm de abrir os olhos, a mente e o coração à diversidade daqueles que nos procuram na expectativa de uma vida mais digna e humana. Já não somos um país só de emigrantes, mas de imigrantes em busca de melhores condições. Será que os temos sabido receber, apoiar ou enquadrar? Não bastam boas (ou pias) intenções, importa dar o passo, abrindo os olhos a quantos querem colaborar e dar o seu contributo. Assim estejamos prontos de olhar atento, alma aberta e espírito receptivo aos outros!




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