Fotografia:
Alg(um)as pinceladas

Levanta-te, home, que a lua já se deitou há muito! Olha que o café ‘inda te arrefece todinho!- Mas que queres tu, mulher?! Estou tão moidinho das lides de onte’ que nem sinto as minhas ricas costas. A “Mansa” saiu-me cá uma mandriona.

N/D
20 Ago 2003

– Mas tu agora deste-me em madraço ou quê? Tens que ir cavar os regos na horta antes que o sol esteja a pino. Olha, eu já me vou para a praia apanhar as algas da maré baixa.

Ancinho ao ombro, a senhora Maria mete pés a caminho; a vegetação rasteira das dunas vai-lhos molhando com o orvalho que nelas pernoitou, como que a prepará-los para eles não estranharem a areia molhada que vão pisar. Os pássaros dão-lhe o tom para a melodia que ela entretanto começa a trautear; mais ao longe, dois galos cantam ao desafio.

«Abençoado mar que nos vai dando estas alguinhas todas para a gente governarmos a vida», diz para si a boa da senhora enquanto as começa a juntar em pequenos molhos. E continua o seu solilóquio: «Estas aqui são para misturar com os adubos e estrumar as terras e aquelas acolá são para vender, que sempre dá para juntar mais uns tostões, daquela moeda moderna que agora se usa, é poucachinho mas vai dando jeito para ajudar às economias».

Os primeiros banhistas chegam à praia quando o sol começa a aquecer. Indiferente a este movimento, a mulher continua a sua tarefa, que o tempo não pode esperar. Um a um, já estão cheios dois valentes sacos, daqueles dos adubos botados lá nas terras. Mal a senhora Maria sabe que sabe tanto como os livros da gente fina: «Na Natureza nada se perde».

Os banhistas continuam a chegar à praia aos poucos, como gotas de soro a cair no tubo que alimenta um doente. O sol já vai alto e nem mesmo assim a mulher tira a camisola, sua inseparável companheira de trabalho faça sol ou faça chuva, que «a outra ‘inda está boa para ver a Deus ao domingo e é mal empregadinha para estes trabalhos; também esta já foi novinha mas agora até já tem os cotovelos a rirem-se; mas serve bem para tapar a blusa que traz por baixo». A tez está crestada pelo tempo de uma vida vivida no campo, bronzeada pelo sol, «mais bonita que essas caras besuntadas». Mulher do Minho que é, não dispensa as arrecadas nas orelhas mesmo com roupa de trabalho.

Mais uma toalha se estende entretanto no areal; mais um guarda-sol se abre; mais um pára-vento se espeta, não vá a nortada começar a levantar-se aos poucos, vinda dos lados de Viana. E o quadro rotineiro vai-se repetindo mais uma vez: aqui desdobra-se um indolente jornal e passa-se um primeiro olhar pelas gordas, ali pega-se na renda para continuar a tirar a amostra da vizinha, mais além põe-se o lânguido corpo a trabalhar para o bronze. À beira-mar sucedem-se os mergulhos, os chapinhos, os chutos dados na descontraída água. Os mais preocupados em manter a forma ou combater o stress aproveitam a pista de areia molhada que a maré baixa lhes estende, quando muito bem entende, para dar um passeio até… àquela duna, ou àquela rocha que o mar já pôs a descoberto, ou àquele vulto (que afinal não passa de um tronco revestido de algas que o mar devolveu a terra). Algumas crianças constroem firmemente os seus castelos de areia, aperfeiçoando as paredes e as ameias, limando as arestas e esquinas.

Indiferente e desde que se conhece habituada a estas cenas todas, a senhora Maria continua a sua tarefa. Já encheu mais dois sacos com algas; ou não fosse ela como a diligente formiga, a amealhar no Verão para ter no Inverno. Não faz como aquelas banhistas que estão ali ao sol deitadas, de costas ao alto. Algumas mais parecem daquelas bonecas pintadas que se vêem na televisão. Já não há vergonhas, o mundo está cada vez mais perdido (será por tal que o seu home acostuma demorar-se mais tempo e apanhar menos algas?!).

Os sacos já estão amarrados e prontos a marchar. O primeiro vai para a cabeça e depois o segundo para debaixo de um braço, que o outro é preciso para dar balanço e equilibrar o corpo, que caminhar assim ajoujada pela areia fora custa mais, que os pés enterram-se muito. Dois banhistas que a apreciam ao longe vão-se aproximando e oferecem-se para lhe levar os outros dois sacos. Um tanto admirada, ela aceita a ajuda, caída de onde menos esperava, que o tempo sempre a correr não perdoa e faz uma pessoa correr também atrás dele para não se atrasar.




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