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Não há fumo sem fogo

Não há fumo sem fogo», observa o povo. E com muita razão, habitualmente. A presença do fumo indica sempre a existência de alguma coisa em combustão. Por vezes, é um bom sinal; outras, revela perigo ou realidades indesejáveis. Que o digamos nós, portugueses, acossados por inúmeros fogos nas últimas e tórridas semanas, que devastaram tanta floresta e tantos bens deste país que nada tem de rico.

N/D
19 Ago 2003

A expressão em causa, porém, pode aplicar-se a outras situações de carácter extra-físico, como seja aos indícios bons ou maus que a actuação de certas pessoas ou de certos grupos de cidadãos fazem sugerir. Neste aspecto, ela visa, infelizmente, mais os contornos negativos do que os positivos. O pressentimento de que um fumo oculta interesses ou comportamentos recriminatórios é mais frequente. Por isso, quando se diz «não há fumo sem fogo», dum modo geral serve para insinuar situações desagradáveis. E a mais ordinária diz respeito à corrupção.
TI são as iniciais duma ONG (Organização não governamental): Transparency International. Tem a sua sede em Berlim e, anualmente, apresenta uma informação sobre a corrupção no mundo. Há pouco, nessa cidade, tornou público o seu relatório anual, fundamentado num vasto inquérito que realizou em 47 países de todos os continentes, salvo o da Oceania. Chamou-lhe “Barómetro Mundial da Corrupção”.

Os partidos políticos encabeçam o alvo das desconfianças dos cidadãos, atingindo níveis elevados de pontuações em alguns países, como a Argentina (58,2 %), Japão (51,9 %), Turquia (42,5 %), Índia e Reino Unido (41,2 %), Canadá (39,7 %) e Alemanha (39,2 %). Noutros, a polícia superou quaisquer outros escopos de suspeição: assim, a Nigéria, o México, a Malásia, Hong Kong e também a Palestina e a África do Sul. Portugal, acompanhado pela Croácia e pela Geórgia, apontou os serviços de saúde como objectivo mais vulnerável da corrupção.

Estes dados, que podem ser discutidos, funcionam como o título do artigo sugere. Não está em causa toda a classe política, todo o aparelho policial e todo o sistema de saúde desta terra e do mundo. Mas penso que será útil não se desaproveitar a ocasião que nos brinda este relatório para que os alvos mais atingidos reflictam sobre as suas obrigações e sobre os seus comportamentos.

É consabida a expressão «a mulher de César não só deve ser séria como parecê-lo». O primeiro ponto surge como essencial; se ela o não é, tudo se desmorona e perde sentido. Precisa, contudo, na sua actuação, de usar da prudência e do recato necessários para não levantar interrogações inúteis e perigosas, porque tanto na política, como na actividade policial e no exercício das incumbências sanitárias qualquer conduta extemporânea ou chocante provoca o mal estar.

A frase «politicamente correcta» torna-se sábia e virtuosa, desde que não se transforme numa manobra de fachada, que oculte intenções demagógicas; se a polícia necessita de ser vigorosa na sua acção, não pode usar paliativos, ainda que isso não se torne popular de forma imediata; e um agente de saúde, por mais competente que seja sob o ponto de vista técnico-científico, não deve tratar quem o procura de um modo pouco afectuoso, sob pena de desiludir e escandalizar o paciente.

Num sistema aberto como a democracia, em que, por princípio, não há privilegiados perante a lei comum, detecta-se com mais facilidade quem é espúrio no exercício do seu ministério. Com alguma frequência – os sistemas políticos não são perfeitos – percebe-se que há exageros, injustiças e até certa leviandade no tratamento de alguns temas, que atingem pessoas e instituições. Eis uma consequência dum bem inestimável chamado liberdade de expressão. Contar com estas imperfeições sem descurar corrigi-las, serve de estímulo à hora da mulher de César se apresentar, munindo-se da carga prudencial de que deve revestir toda a sua actuação pública. E esta atitude, se continuada, é capaz certamente de alterar os resultados de relatórios futuros.




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