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O “apagão” e os demónios internos

Já todos conhecem os factos: devido à quebra do abastecimento eléctrico, por causas ainda por apurar, o coração do Império – Nova Iorque e várias outras re-giões extremamente povoadas dos Estados Unidos da América e do Canadá – ficaram, por largas horas, sem energia, naquele que foi considerado um dos maiores “apagões” dos Estados Unidos. Cenas de pânico, engarrafamentos gigantescos, gente a fugir a pé, dezenas de milhares de pessoas presas nas carruagens dos metropolitanos e nos elevadores, congestionamento e inoperância das redes de telecomunicações – eis alguns dos resultados dessa falta súbita de energia eléctrica.

N/D
18 Ago 2003

Outros já chamaram a atenção para a fragilidade de um país face a uma infra-estrutura tão básica como é a rede de distribuição de electricidade. Parece que se trata de um sinal eloquente do que pode trazer um neo-liberalismo sem sentido do bem público, eventualmente um recado não menos eloquente para os crentes fervorosos de que o mercado e a iniciativa privada são sempre preferíveis à iniciativa e ao controlo públicos (que não necessariamente estatais).
Como vimos, foi automático o reflexo de associar, nas primeiras horas, o “apagão” a algum acto terrorista, sucedâneo do 11 de Setembro. A ponto de o próprio presidente Bush ter vindo garantir que esse cenário estava fora de causa. Nas últimas semanas, as autoridades norte-americanas voltaram a divulgar alertas para a eventualidade de novos ataques terroristas, pelo que o clima social, que é tenso de há dois anos para cá, já não primava propriamente pela descompressão.

A pergunta que ocorre fazer é a de saber quanto tempo poderão as pessoas de uma cidade, de um país, de uma zona do mundo viver na iminência (real ou alimentada) de que uma desgraça lhes vai estourar por cima da cabeça e que o inferno pode estar ali ao dobrar dos ponteiros do relógio. Mais: como é possível viver – digo viver, não sobreviver – com a sensação (real ou alimentada) de que cada vizinho pode ser um inimigo, cada estranho uma ameaça, cada gesto menos usual uma provocação?

O “apagão” não terá, provavelmente, nada a ver com o terrorismo, mas constitui mais uma frente e mais um sintoma de que o gigante, afinal, também tem pés de barro e que, poderio económico, supremacia militar e controlo geo-estratégico comportam um reverso de desassossego que não augura nada de bom também para a grande parte dos norte-americanos.

Metaforicamente, o “apagão” é esse poderio a dar de si, não por efeito do inimigo externo, mas em resultado dos demónios internos.




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