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Casa onde não há pão

Existe na oralidade portuguesa, um conhecido ditado popular que diz: – «casa, onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».

N/D
18 Ago 2003

Perante, o que se tem dito e escrito, a propósito do incêndio que destruiu grande parte da floresta portuguesa, a expressão que me acode ao pensamento é, precisamente, essa: – «casa, onde não há pão… ».
Utilizaram-se os meios de defesa do costume; reforçou-se o pessoal dos bombeiros com milhares de soldados; vieram aviões e helicópteros da estranja e, não obstante, as chamas assassinas continuaram a sua fúria destruidora, devorando tudo quanto lhes aparecia pela frente.

Naturalmente, que se compreendem e aceitam todos os desabafos de quem ficou sem vida, casa e haveres.

Todos desejavam ter ali, à mão, os meios necessários para abafar e apagar aquelas labaredas de fogo que, em poucos momentos, lamberam e consumiram tudo aquilo, que levou uma vida inteira a construir.

Por isso, temos de compreender e aceitar todos esses desesperados e legítimos desabafos.
O mesmo não direi dos aproveitamentos políticos, que têm tanto de nojentos como de miseráveis.

Será bom não esquecer a excepcionalidade das temperaturas e das rajadas de vento e não olvidar que nações como a Austrália, França, Canadá, Brasil, etc., perante o mesmo fenómeno e com outras possibilidades, também nada fizeram.

Creio ter chegado a altura de se pensar na reorganização da área florestal portuguesa.

A meu ver e em termos sucintos, havia necessidade de substituir as actuais espécies arbóreas, por outras mais folhosas e menos propícias ao fogo; de colocar diversos corta-fogos, em locais estrategicamente estudados; de arranjar acessos possíveis aos carros dos bombeiros e de construir tanques com reservas de água, à disposição dos helicópteros.

Jamais, governo algum foi capaz de empreender tão urgente plano, o que, reconheça-se, seria demorado e tremendamente dificil, em termos de concordância humana e social.

Surge, então, uma situação que, até tenho pejo de registar, tão pungente.

E bárbara se me apresenta.

Muito do que o homem não foi capaz de fazer, em dezenas de anos, resolveram-no as labaredas de fogo, em meia dúzia de dias, de uma forma brutal e desumana.

A superficie de terreno está limpa das árvores a substituir, de cisco e restolho, e agora é mais fácil, não só repovoar toda a área, abrir corta-fogos e estradas de acesso, como represar as águas de Inverno para casos de calamidade como esta.

É uma situação sinistra esta de encontrar bondade numa tremenda calamidade e de achar que, até de uma pungente catástrofe, se pode tirar proveito. Mas… é incontroversa a ajuda e tremendamente verídica a situação criada para a nova florestação.

Creio ser, também, o momento de negociar com os proprietários; mas, por amor de Deus, paguem-lhes o devido, porque para prejuízo e desgosto já lhes chega o que tristemente agora lhes aconteceu.

Essas pobres criaturas merecem ter melhor sorte na vida. Já Ihes deve ter chegado toda a esforçada e penosa vida que levaram, durante tantos e tantos anos, e que meia dúzia de labaredas inutilizaram.

E, por aqui me fico, porque o momento não é de palavras, mas de acção. Não é de política divisionista, mas de união e conjugação de esforços, em prol do Portugal de todos.

O programa de acção é tão activo e oneroso, que exige solidariedade e ajuda estrangeira.

Estou convencido de que, como em outras ocasiões, os portugueses saberão estar à altura dos acontecimentos.




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