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Uma espinha cravada na garganta do governo

Uma mãe é uma mãe. Dela, pode-se e deve-se esperar tudo. Pode-se mesmo esperar que resolva exercer o poder maternal através da imprensa e esporadicamente através da televisão. Sucede, contudo, que nem todas as mães são donas, como Helena Sacadura Cabral, de um espaço semanal na imprensa para proteger a prole.

N/D
17 Ago 2003

Na semana passada, em mais um episódio de um dos folhetins do verão, a mãe de Paulo Portas veio defender o seu “tumor” – para usar o título do artigo do “Diário de Notícias” – das investidas metafóricas de Mário Soares: “os ‘meus filhos’, quer se chamem Miguel ou Paulo Portas, hão-de contar, sempre, com o incondicional apoio da mãe deles. Trata-se de um direito do qual não abdico. E de cujo exercício me não envergonho”. Os espaços de opinião existem para isto mesmo.
Sempre que uma pessoa, especialmente se ocupar um cargo político, for alvejada por uma metáfora mais destemperada, a mãe do visado – ou, em alternativa, qualquer outro membro da família – deveria ter o direito a ocupar um espaço na imprensa para resgatar a honra do filho. Alguém, suponhamos, dizia que uma determinada iniciativa de um político não lembrava ao careca.

Aplicando-se a regra de protecção familiar, algum jornal reservaria, então, um pedaço de página para que a mãe, o pai, o irmão, o primo ou um tio pudessem ripostar. E as mães de outros profissionais, dos jogadores de futebol, por exemplo, não deveriam igualmente ter a sua colunazinha à segunda-feira para poderem defender os filhos massacrados durante o fim-de-semana?

Quando Laelson, do Moreirense, que (com Rui Borges, do Belenenses, e Fiston, da Académica) é o jogador mais baixo da SuperLiga (1,62m), levasse um encontrão de Khalid Fouhami, da Académica, que é o mais alto (1,98m), não seria legítimo que algum familiar do baixo pudesse usar uma coluna na imprensa para repreender o alto. Se uma metáfora dói, experimente-se um encontrão ou um pontapé nas canelas.

Se há mães que nunca aparecem, há outras que se intrometem em excesso.

Os filmes de Woody Allen estão repletos de mães metediças. Num deles, a mãe do protagonista paira, omnipresente, sobre a vida do filho nos céus de Nova Iorque. As mães judias são particularmente dadas a este modo de proceder. Num livro de humor judaico, da autoria do rabino Marc-Alain Ouaknin, há várias piadas sobre mães. O que é que uma mãe judia faz quando, a meio da noite, o filho se levanta para ir ao quarto-de-banho? A resposta é elucidativa: vai-lhe fazer a cama. E qual é a diferença entre um terrorista palestiniano e uma mãe judia? A resposta é ainda mais esclarecedora: com as mães judias não é possível negociar.

No folhetim do “tumor”, depois de Mário Soares ter classificado Paulo Portas dessa oncológica maneira, foram muitos os militantes do Partido Popular que apareceram a defender o ministro como mandam, aliás, as boas obrigações partidárias. Ao mesmo tempo, na imprensa, no “Expresso” desta semana, por exemplo, recordam-se epítetos que o ministro da Defesa foi disparando quando foi director de “O Independente”.

O exercício de memória deixou de fora os demolidores artigos que, antes, Paulo Portas tinha assinado no “Semanário”. Alguém se lembra deles? E alguém se lembra do momento em que ele, num programa de Margarida Marante, atirou a Francisco Lucas Pires um comentário de inusitada violência, dizendo-lhe que ele tinha engordado quando se esperava que tivesse crescido (como Helena Sacadura Cabral bem avisou há comentários que se voltam contra quem os profere).

Há várias formas para dizer que um político não deve continuar a ocupar um determinado cargo. Como Mário Soares demonstrou, há modos de dizer que são mais demolidores do que outros. A verdade é que a contundência decorre não só da força da expressão escolhida, mas também da convicção que ela traduz e do nome de quem a profere.

Claro que se podia ter dito que Paulo Portas está para o governo, como a traça para o fato, o caruncho para a madeira, o fruto podre para o pomar, a mosca para a sopa, o pneu furado para a viatura ou, para usar uma terminologia informática, que o ministro é um vírus na placa executiva.

Ao ir buscar uma metáfora à medicina e diagnosticar o tumor no seio do governo, Mário Soares foi arrasador. Se tivesse dito que o ministro era uma pedra no rim do governo também o teria sido. E se se lembrasse dos anos de 1974 e 1975, podia ter adaptado um slogan da altura para caracterizar Portas como uma espinha cravada na garganta do governo. Em qualquer dos casos, entes estranhos que precisam de ser extirpados.

Enquanto Mário Soares tenta extirpar Paulo Portas do governo, a rapariga que está na mesa ao meu lado nesta esplanada em frente ao mar, com uma pinça, extirpa um a um os pelos das pernas.

E eu também sei muito bem quem, de imediato, gostaria que se extirpasse neste momento em que uma criatura que veste uma camisola da selecção portuguesa e que, quase em cima de mim, grita pelo filho que se chama Tiago, que lhe tinha escondido não sei o quê e que, pouco depois, começa a trepar pela minha cadeira não sei bem para onde, enquanto a mãezinha, despreocupada, barafusta não sei com quem numa língua estranha parecida com o francês e o paizinho, com a garganta seca pelos berros, pede mais um fino.




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