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Se ríssemos…

Damos demasiada importância a nós mesmos. Levamo-nos demasiado a sério e daí resulta uma série de coisas desagradáveis para nós e para os que convivem connosco.

N/D
17 Ago 2003

É frequente que uma frase ou um gesto de outra pessoa ganhe a nossos olhos o tom de uma ofensa. Somos doentiamente sensíveis neste ponto.
Se alguém se cruzar connosco e não nos cumprimentar, ou se não nos cumprimentar com um certo tom de voz, ou se não utilizar o sorriso que esperávamos, logo entendemos que não nos estão a considerar como deviam.

Se discordarem de nós numa qualquer pequena coisa, colocamos imediatamente essa atitude num plano de ofensa pessoal.

Se não for possível darem-nos aquilo que desejávamos, ou com a plenitude que desejávamos, isso significa que não gostam de nós ou, até, que nos têm um ódio incompreensível.

E se se esquecerem de uma coisa que tínhamos pedido… Ou se o nosso aniversário não tiver desta vez uns festejos tão brilhantes… Ou se nos fizerem uma crítica, mesmo com boa intenção… Ou se não derem total atenção às nossas palavras…

Ficamos com essas “ofensas” cá dentro, na forma de rancores, ressentimentos. Ou então – se compreendermos que guardar rancores é como tomar veneno e esperar que assim a outra pessoa morra… – soltamo-los, à primeira oportunidade, de mil maneiras diferentes, como quem dispara facas afiadas.

Há talvez problemas na nossa vida que resultaram disto. Tem havido guerras, de várias dimensões, com esta origem. Tem havido famílias destruídas por causa disto.

Por que é que achamos que temos direito a tanta consideração? Por que é que aquilo que consideramos os nossos direitos é, a nossos olhos, tão importante?

Não somos o centro do mundo. Os outros, quando lidam connosco, não têm nenhuma razão para terem uma impecabilidade e uma absoluta concentração nos mais pequenos pormenores. É bastante razoável que estejam a pensar noutra coisa. Que tenham os seus próprios problemas. Que estejam nesse dia com dor de cabeça, ou que tenham um filho doente. É natural que lidem connosco como com alguém igual a eles, e não como com Deus.

Somos, cada um de nós, um bicho da terra bem pequeno. Um grão de areia. Menos que um grão de areia, em duração, porque nós vamos e os grãos de areia ficam.

Somos apenas um de biliões de habitantes temporários deste pequeno planeta, que dá voltas curtas em redor de uma insignificante estrela que não passa de uma no imenso número das estrelas.

Quando nos sentamos a ver passar um rio, a verdade é que é o rio que está a ver-nos passar. Porque, depois de nós, o rio estará ali.

Já nos disseram – mas não compreendemos – que nos tornamos grandes e importantes e eternos quando nos damos aos outros sem esperar nada deles. Sem desejar compensações. É talvez este o único direito que devíamos estimar: o direito de não querer direitos.

É possível que uma maneira de nos libertarmos deste egocentrismo (eu no centro), que nos afasta da felicidade e da grandeza, seja o bom humor.

Devíamos rir até à gargalhada quando dentro de nós – dentro do pequeno grão de areia – se ergue o rei ofendido, o nobre desconsiderado, o Deus incompreendido reclamando os seus direitos. Devíamos rir porque… é ridículo. Devíamos rir como quando vemos, no Carnaval, a criança colocar um bigode postiço sobre os lábios. Ou como quando vemos alguém levar de passeio pela rua um cão que foi embrulhado num chapéu, numa camisolinha e nuns sapatinhos…

Se ríssemos, talvez desabasse esse palácio artificial, falso, sob o qual temos vindo a abrigar-nos.




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