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Apontamentos “ao acaso”

1. A frase saí-lhe espontânea no momento em que parou à sombra acolhedora da árvore, após ter acabado de suportar mais um período da canícula do dia durante os largos minutos que demorou a percorrer as poucas centenas de metros a “roda” de caracol. “Abençoado pinheiro!” E o seu pensamento divagou então um pouco: “Afinal também há Pinheiros que são abençoados.”

N/D
16 Ago 2003

É só puxarmos um pouco pela imaginação, pois histórias semelhantes podem por exemplo passar-se com pereiras (quando os seus frutos são saborosos) e Pereiras, com silvas (quando as amoras já estão negras, como diz a canção) e Silvas; aquelas são mansas e precisam de ser tratadas para darem bons frutos, mas estas dão saborosos frutos crescendo “ao Deus dará”.
Curioso, apesar de já conhecer esta expressão há bastante tempo, só agora me deu para pegar no alfarrábio para ver o seu sentido. E fiquei a saber que, ao pedido de “uma esmola, pelo amor de Deus” responderiam as pessoas mais insensíveis ou forretas “Deus a dará”, deixando os necessitados entregues à sua própria sorte, ao Deus dará.

2. Há por vezes momentos ou situações que nos levam a pensar que a Natureza é imperfeita, que nem todas as suas leis batem certo.

Ainda há pouco tempo tal sucedeu numa praia aqui do Minho: o dia amanheceu radioso, a prometer uma manhã bem passada no areal; nos preparativos em casa não se esqueceu a toalha para lá se estender e em alguns casos a cadeira para mais comodamente se ler ou fazer renda; pelo caminho o sol começou a aquecer, convidando desde logo a um mergulho que prometia ser refrescante; ademais, nem se fazia sentir a frequente nortada, vinda dos lados de Viana (do Castelo); quanto mais as ondas se aproximavam dos banhistas, tanto mais estes iam saboreando desde logo aquela manhã de praia. Só que à chegada tinham a desilusão à sua espera. Interpretando a vontade do mar, o banheiro havia hasteado a bandeira vermelha.

Logo no dia seguinte a manhã surge cinzenta, envolta num manto de nevoeiro, que aos poucos se foi levantando (preguiçoso, lânguido, talvez por estar em férias), deixando a descoberto um céu igualmente cinzento que o sol não conseguia furar.

Um pouco mais agasalhados que na véspera e sem a respectiva toalha, alguns banhistas dão um passeio até ao areal; mas à medida que se aproximam das ondas, estas vão recuando depois de terem desembarcado na praia. À chegada espera-os… a bandeira verde com que o banheiro sinalizou a vontade do mar.

Visto agora a pele daquele agricultor que pensava como eu. Cansado de aguilhoar a pachorrenta vaca que (às vezes pouco) o ajudava no serviço da lavoura ao mesmo tempo que via os pardais a voarem lestos, maldizia a Natureza por ela ter dado asas às pequeninas aves e não ao corpulento animal, que, se as tivesse, despacharia o serviço muito mais depressa.

Até ao dia em que, cansado de tanto esforço, se foi deitar à sombra retemperadora de uma frondosa árvore; estava ele com os olhos na ramagem entregue à sua cogitação a pensar no esforço despendido quando de repente lhe cai na cara o “presente” de um pardal.

Acto contínuo, o nosso homem pensa para si, em voz tão alta que assusta a inocente ave: “Olha se as vacas tinham asas! Afinal a Natureza está bem feita.”

3. Um café a bordo.

Há mais de trinta anos que não o fazia. Mas naquele domingo aproveitou a oportunidade para, depois de ter almoçado em terra, tomar o café a bordo de um navio. Saboreou então um “Bacalhau à Gil Eannes”, findo o qual respondeu negativamente à pergunta “café?”; o pensamento já estava a caminho do barco, acostado numa doca dos Estaleiros de Viana e desde há alguns meses apetrechado com um bar aberto ao público.

Chegado ao cais, embarcou… subindo a escada de acesso ao portaló situado à popa, dando logo de caras com a esplanada do bar, equipada, não a condizer com a época em que o navio estava no activo mas como qualquer esplanada moderna, com mesas e cadeiras publicitárias. Entrado no respectivo compartimento, de imediato se sentiu recuar umas décadas no tempo (o respectivo arranjo a tal o levou) e a “navegar no mar alto” da sua imaginação.

Tendo à sua frente o café a fumegar, seguiu então Atlântico fora duas rotas que a memória dos tempos lhe trouxe à lembrança. O Gil Eannes, navio-hospital em que acabava de entrar, levou-o a caminho dos mares frios do Norte, onde era pescado o bacalhau que se vendia na mercearia do pai.
Ao mesmo tempo, num “outro” barco navegou para Sul, passando o Trópico de Câncer e o Equador rumo a longínquas paragens africanas.

Ao olhar através das vigias a estibordo, “viu”, num dia em que as águas estavam um pouco mais agitadas devido ao sopro de um qualquer pequeno Adamastor, alternadamente apenas mar ou céu.

Depois, e no decorrer da visita ao resto do navio, relembrou aqueles dias todos de viagem, em que o barco que o levava era uma pequena ilha em movimento, rodeado que estava de água por todos os lados num mar que a linha do horizonte limitava.




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