Fotografia:
Aerotanques com má pontaria e helicópteros incendiários

1) A “zona do Pinhal” – Quando nos últimos anos me deslocava esporadicamente a Castelo Branco bem que eu estranhava, no Portugal de hoje, aquelas vastas serras cobertas com pinhais a perder de vista. Num país todo queimadinho, e subsequentemente todo eucaliptizado, aquilo era um “anacronismo”, uma “cinderela” que causava inveja às irmãs mais feias (i.e., aos tais distritos queimados e eucaliptizados).

N/D
15 Ago 2003

Ao lado da «zona do Pinhal” existiam, p. ex., os pseudo-parques naturais da Malcata e da Serra da Estrela, que sucessivos anos de incêndios desarborizaram quase completamente…
Por isso não me surpreenderam os fogos-postos deste Julho-Agosto, que finalmente reduziram completamente a negras cinzas os verdes pinhais das serras do Açor, do Muradal, do Cabeço da Rainha, de Alvelos, da Lousã-leste, da Gardunha (nos concelhos de V. de Rei, Sertã, Oleiros, Mação, Pampilhosa, Proença, Castelo Branco e Fundão).

Gabavam-se os locais, muitos deles residentes em Lisboa, de que aquela era a maior “mancha” de pinheiro bravo (“pinus pinaster”) da Europa; embora por acaso não o fosse, pois a maior é a da região francesa das Landes, a sul de Bordéus; onde aliás (também “por acaso”) é raro haver um incêndio…

2) Fumigar as pessoas para que saiam (“Smoke them out”) – Os ascorosos interesses de muitos madeireiros (não todos) e das empresas nacionais e internacionais de celulose devem ter decidido que aquela vasta mancha de pinhais alheios estava “madura” para o corte (e para ser embora parte substituída pelos ascorosos eucaliptos, ainda mais “rentáveis” que o pinho, embora destruidores dos solos, da paisagem, da caça e dos lençóis fiáticos).

Ora quem pode (ou quer) viver no meio das cinzas e dos eucaliptos? Ninguém. Portanto, toca a fazer às pessoas o que se faz aos bichos. Fumigá-los para fora das tocas. No caso em apreço, das pequenas aldeiazitas pitorescas dispersas desde tempos imemoriais por aqueles cerros, montes e vales.

Basta queimar-lhes os pinhais, os gados, as leiras (este ano também os currais e as casas), para os motivar a fugir para Lisboa, Castelo Branco, Tomar e Santarém; e a abandonar os seus hectares de monte à pasta de papel do eucalipto das “celuloses”.

Aliás, a celulose de Abrantes fica ali tão perto… E segundo a reportagem da SIC Notícias (de 6-8-2003) é normal entrarem diariamente em unidades destas, cerca de 200 camiões, cada um com 20 toneladas de madeira.

E como diziam os americanos na guerra do Afeganistão, quando pretendiam desalojar das grutas os fanáticos de Al Qaeda: “Smoke them out, smoke them out!”. Só que alguns moradores do Pinhal não conseguiram sair a tempo.

Daí que, até à data em que escrevo (8-8-2003) já se contabilizassem 15 mortos e largas centenas de casas, armazéns, currais e escolas ardidas.

3) Os helicópteros avistados pela presidente Irene Barata. – A senhora presidente da câmara de Vila de Rei, pessoa de carácter e de coragem, denunciou que, logo desde o início dos fogos-postos foram avistados por muitos munícipes seus, vários helicópteros a soltar engenhos explosivos que causavam os fogos. A casa da mesma senhora ardeu logo no dia seguinte, parece…

A notável autarca voltou mais tarde à carga, testemunhando que ela própria vira que os aviões que despejavam água sobre os fogos falhavam com frequência inadmissivelmente o alvo. Curvo-me perante esta senhora com “S” grande, esta nova padeira de Aljubarrota, esta Dona Luísa de Gusmão, esta nova Deuladeu Martins de Monção. Quando no país fraquejam os homens, pois que ao menos avancem as mulheres.

E assim, pelo desassombrado testemunho da autarca do concelho donde é originário o actor Raul Solnado, fica a saber quem ainda não sabia, que em Portugal existe uma conspiração para deitar fogo à floresta e outra para lucrar com o negligente combate às chamas.

4) O senhor de gravata com um balde na mão. – Os canais de TV têm transmitido algumas cenas de antologia, a propósito da tragédia, Numa delas um lavrador a chorar (e que tudo perdera) exclamava que a forca era pouco castigo para os incendiários.

Noutra, um vídeo amador filmava e relatava cenas de destruição, com um nível que nada ficava a dever aos profissionais. Noutra ainda, um sexagenário cavalheiro de província, com ar muito digno e sério, em mangas de camisa mas sem tirar a gravata, percorre um amplo quintal com mais um pesado balde de água na mão e diz (por sinal muito acertadamente) que o incêndio na sua propriedade não se devia, como é óbvio, ao “mato por cortar”.

E diz também que neste país só os incompetentes é que tinham tempo de antena. O tal “mato por cortar” tem sido utilizado como desculpa para justificar o grande número de incêndios. Mas como é sabido, os matos só ardem se alguém lhes deitar fogo. “Sarça ardente” só uma vez; foi no monte Sinai, quando Deus terá querido falar a Moisés. E já lá vão 3.300 anos!

5) Acabar com os fogos? Só mudando o regime – A larga incidência do crime organizado de fogo posto é hoje em dia bem evidente em Portugal. Quer pelos engenhos encontrados no terreno quer pelos helicópteros incendiários agora (aliás já antes…) avistados, quer pela forma sistemática com que são atacadas certas regiões (enquanto que outras, mesmo ao lado, passam quase incólumes).

Embora os fogos-postos contribuam provavelmente para 90% das ocorrências (sendo as restantes 10% devidas a negligência grosseira ou a acidentes ou raios) admite agora a distraída Polícia Judiciária que os ditos fogos postos representarão no mínimo 34% dessas causas de incêndio.

Ora as contas são fáceis de fazer. Se por ano há largas dezenas de milhar de fogos florestais, cerca de 20.000 deles se deverão assim a mão criminosa. Ora se cada um desses energúmenos contribuir para 5 fogos (por hipótese), chega-se à conclusão de que há cerca de 4.000 incendiários organizados, dos quais só 20 ou 30 são detidos anualmente.

Quem os organiza, quem lhes paga, quem os encobre, quem os protege, isso qualquer português com inteligência mediana já deve ter intuído.

Mas como todo este corrupto ambiente se tem passado à sombra apenas dos sucessivos governos democráticos (pois nem no tempo de Salazar e Caetano, nem no de D. Dinis, nada disto acontecia…) depreende–se então que este tumor só há de morrer um dia com o próprio Regime. E só então se saberão os pormenores e a verdade do factos. Antes, é difícil. Mas não impossível, é claro.

A Democracia ainda tem algumas virtualidades… Mas é preciso aproveitá-las. A partir de agora, os democratas sérios vão-se defrontar com os democratas corruptos. E a respeitabilidade da própria Democracia está dependente da vitória dos primeiros. Para sempre.




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