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A «ceia dos generais»

Por motivos que não vêm ao caso, eu tive a felicidade de ler a «Ceia dos Cardeais», no tempo em que ainda andava na escola primária.

N/D
15 Ago 2003

Depois, anos mais tarde, quando já tinha outra percepção das coisas, pude saborear, por mais duas vezes, a interessante tertúlia cardinalícia, que Júlio Dantas colocou na boca de tão ilustres purpurados, enquanto degustavam preciosas iguarias e delambiam os saborosos néctares que a mesa lhes oferecia.
Estava, então, muito longe de pensar que, passados tantos anos, teria oportunidade de conhecer uma outra famosa ceia, desta vez, saboreada por meia dúzia de militares que ocupam altos cargos na hierarquia castrense.

Suas Excelências trajavam à civil, se não poderíamos dizer que se tratava duma ilustre e bem ornada constelação de estrelas.

A este jantar, chamou um semanário, que se publica às terças-feiras, «A CEIA DOS GENERAIS».
Apesar de vivermos em tempos de escutas telefónicas e de revelações de segredos, a verdade é que os ilustres varões das artes marciais tiveram necessidade de nomear um emissário, para dar a conhecer os objectivos da reunião, ao Presidente da República e ao primeiro ministro.

Foi escolhido um dos presentes mais galardoados.

Só que, para desgosto de uns e gozo de outros, as personalidades destinatárias da emissão acharam por bem não receber o enviado, nem querer saber, por essa fonte, de qualquer problema castrense.
E, desta forma e jeito, também a população ficou a ignorar o que pretendiam tão famosas personalidades, reunidas em «rancho» especializado.

Ignorava-se, se o problema acusava reumatismos senis ou se surgia de bicos de papagaio precoces.
Foi então, que o Dr. Mário Soares, em entrevista concedida, desvendou o segredo, afirmando que se tratava de «extirpar um tumor», sob pena de a matéria virulenta contaminar a vida política portuguesa.

Como o forte dos generais nunca foi medicina, a princípio, estranhou-se o veredicto soaresiano; mas, como «de médico e louco, todos temos um pouco», a notícia espalhou-se.

No momento, ignora-se se o referido tumor é benigno ou maligno.

Sabe-se, isso sim, que já é antigo e que o diagnóstico acusa corpos e anticorpos, conforme as conveniências do momento.

Já existia no tempo do consulado de Cavaco Silva e, na imprensa de então, sempre supurou pus e outras excrescências, perante o silêncio dos actuais denunciadores.

A verdade, nua e crua, é que, com base neste conceito, Portugal está cheio de tumores. Deste e de muitos outros.

O rectângulo parece o corpo de um coceguento sarnudo, salpicado de manchas encarnadas por tudo quanto é sítio.

Então, agora, com tantas queimaduras!…

Mais do que extirpar um, interessa, a meu ver, extirpá-los todos, seja na política, como na justiça; seja na Casa Pia, como na Cruz Vermelha.

Só, assim, Portugal se verá limpo das «maleitas» que, há tempos, lhe andam a tolher o destino.




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