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A emigração passa por Fátima

A história e a descrição dos caminhos da emigração não ficariam completos, se não houvesse uma referência explícita à Senhora de Fátima.

N/D
14 Ago 2003

De facto, os caminhos de Fátima, são uma referência indispensável para a maioria dos emigrantes. Não só quando vêm de férias, sobretudo em tempo de Verão, mas também nas próprias comunidades onde vivem. Aliás, a maioria leva imagens de Nossa Senhora de Fátima, pendura o terço que comprou em Fátima, no carro, para que a Senhora os proteja na viagem, ou leva alguma recordação que adquiriu quando esteve em Fátima.

Muitos emigrantes, embora durante o ano, não participem em nada nas suas próprias comunidades religiosas, a primeira coisa que fazem quando chegam a Portugal, é ir a Fátima pôr uma velinha a Nossa Senhora. E se lá não vão quando chegam, dificilmente partem sem passarem por Fátima.

Tendo em conta o facto da atracção dos emigrantes a Fátima e a devoção a Nossa Senhora, há muitos anos a Igreja, através do departamento das Migrações instituiu a “peregrinação dos emigrantes” no mês de Agosto. O que acontece ainda actualmente.

Devido a esta preocupação no próprio santuário, a peregrinação dos dias 12 e 13 de Agosto, quer as temáticas, quer a organização, foram orientadas para a participação dos emigrantes. Organizaram-se debates, mesas redondas, momentos de oração, exposições, publicaram-se brochuras e o momento alto da Eucaristia tem tido a presidi-la, sempre, algum Bispo que está sensibilizado para as questões da emigração, ou que vive em contacto com as comunidades no estrangeiro.

Há tempos fui convidado para ir presidir à peregrinação em honra de Nossa Senhora de Fátima nos arredores de Paris, onde uma comunidade portuguesa celebra esta festividade há mais de trinta anos. Embora sem padre português, a comunidade, dinamizada por um grupo de leigos, teima em prosseguir com esta devoção. E tudo está previsto desde a formação e as celebrações religiosas até ao convívio, à festa e à música portuguesa. Aliás, nesta mesma comunidades, foi numa destas peregrinações que nasceu o Grupo Folclórico português que, todos os anos, anima a parte cultural.

Sinto que é uma necessidade não só religiosa, mas também emocional e cultural, a organização destas peregrinações em variadíssimas comunidades portuguesas. Este fenómeno conseguirá, por certo, juntar mais portugueses que a política, que o desporto ou de qualquer iniciativa somente cultural. E quando se juntam todas essas valências é o povo português a viver, a palpitar e a rezar.

Durante muitos anos, no centro-sul da Alemanha, tive também a responsabilidade de organizar a peregrinação dos portugueses, no santuário de Marienthal, em honra de Nossa Senhora de Fátima.
Alguns milhares ali acorriam todos os anos e verificava que era como que um acto natural nas suas devoções portuguesas. Para ali transportavam a imagem de Fátima, ali faziam as suas preces, as suas devoções e até as suas promessas, tal como se fosse em Fátima. Aliás, a imagem neste dia ali venerada, viera de Fátima, o que para os portugueses era muito importante. Aliás, nesse mesmo santuário havia uma outra imagem de Nossa Senhora de grande devoção dos alemães, mas nesse dia, para os portugueses, a Senhora de Fátima é que era a “verdadeira Senhora”, ou a Senhora da devoção dos portugueses.

Há vozes que não aceitavam esta religiosidade, alegando falta de aculturação religiosa e apontando para a construção dum “gheto religioso”. Outros diziam que era apenas o reavivar duma mentalidade alienadora veiculada por cânticos e cerimónia de Fátima. Outros ainda a manutenção duma piedade mariana nada cristocêntrica.

Para além de tudo isto, o que se pôde verificar (e as coisas neste âmbito continuam a realizar-se) é que a devoção a Maria e sobretudo com o nome de Senhora de Fátima, é uma força catalizadora que continua a congregar milhares e milhares de emigrantes portugueses pelas comunidades no estrangeiro. Fátima continua a atrair, em qualquer época do ano, mas sobretudo no Verão, levas intermináveis de cristãos que labutam lá fora.

No meu entender, as coisas não se resolverão eliminando o que se foi construindo durante muitos e muitos anos, mas purificando e dando outra abertura às celebrações litúrgicas e pondo em todas as devoções, mesmo marianas, a centralidade de Cristo ressuscitado e glorioso, para o qual todos caminhamos com a presença e a força de Maria.




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