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Três catástrofes: Prestige, incêndios e o líder da oposição

No espaço de menos de um ano a Península Ibérica vê-se confrontada com duas catástrofes não naturais. Do lado Espanhol com o afundamento do Prestige, do lado Português com os terríveis incêndios que nos assolaram. Estes últimos classificados pela comissária europeia de “terrorismo ambiental”, embora nos pareça que a mesma classificação se pode atribuir também à catástrofe do Prestige.

N/D
12 Ago 2003

Mas não só a classificação afigura-nos semelhante. Nesta altura ambos estão já contabilizados financeiramente no mesmo prejuízo, cerca de mil milhões de euros, necessitando de alguns anos até se deixar de sentir os seus efeitos e, lá como cá, o maior partido da oposição, partido socialista, teve a tentação de aproveitar a catástrofe para retirar vantagens. Em Espanha sabe-se que não resultou, vindo só a servir para o arrefecimento do entusiasmo em relação ao novo líder Zapateiro, que agora se afunda na questão da Região de Madrid, revelando um partido socialista no seu pior quanto à sua organização interna. Em Portugal, o líder da oposição, esgrimindo com o debate dos incêndios na comissão permanente do Parlamento em pleno Agosto, retirando-se de seguida para banhos, sem antes perder o seu já famoso telemóvel.
Convenhamos que, num país onde se vive uma catástrofe, o telemóvel do líder da oposição voltar a ser tema de notícias, não é muito bom para a auto-estima desse país. Se aplicássemos a teoria do senhor Pinto da Costa, que ironizando ao seu estilo único, alardeava contentamento com a presidência de Vale de Azevedo, dizendo que todos estavam contentes, quer os benfiquistas quer os outros, então nesta altura todos os partidos estariam contentes com a liderança de Ferro Rodrigues. Mas resulta que, este nível de mediocridade é de facto prejudicial para todos, e nivelar-nos por baixo não fará de nós um país melhor.

Tem acontecido com todos os partidos da democracia portuguesa, apresentarem líderes fortes e carismáticos, alternando com outros não tão bem conseguidos. Mas numa analise muito rápida, pareceu-me que em período algum se encontrou um dos maio-res partidos tão mal dirigido e limitado quanto à capacidade humana. Repare-se que a actual equipa dirigente do partido socialista é composta, para além de Ferro Rodrigues, por Paulo Pedroso, actualmente detido, Vieira da Silva e o sempre omnipresente em tudo o que foi menos claro nos governos de António Guterres, o actual deputado Rui Cunha. O líder da oposição e a sua equipa parecem de facto muito fracos. Estão na política desde sempre, deambulam entre parlamento e governo. Nunca trabalharam numa empresa ou organização semelhante, por conseguinte não têm noção do esforço quotidiano necessário para que essas organizações sobrevivam. Pelo contrário, habituaram-se à ideia de que os recursos são infindáveis e consequentemente, facilmente desbaratados. Nunca questionaram quem paga as benesses, nem de onde vem o dinheiro que a nova democracia se habituou a desbaratar. Pese embora todos sabermos que foram uma segunda escolha muito apressada depois da retirada do anterior ministro dos negócios estrangeiros, Jaime Gama, longe vão os tempos de Mário Soares, Vitor Constâncio e Jorge Sampaio. Seria bom para todos um partido socialista melhor, diferente e onde o telemóvel não fosse o mais importante de tudo. Pessoalmente aprecio muito a elevada inteligência e capacidade de António Vitorino, à qual já me referi algumas vezes, um dos poucos exemplos, antes de se ter tornado comissário europeu, em que o mercado das empresas já recrutou do partido socialista. Mas dentro desse grande partido português, outros existirão, como o próprio Jaime Gama, certamente capazes de prestar um melhor serviço ao país, mais exigente, e de melhor nível, quer na oposição quer no governo, por forma a poder alavancar-nos, dado que no caso português, não nos falta margem de progressão, como quase todos os indicadores mostram.




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