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Os incêndios

O espectáculo que os telejornais nos têm dado, desde há quinze dias aproximadamente, sobre os diversos incêndios que devastam florestas, aldeias e até vidas de portugueses, afectam-nos a todos e dão-nos pena. Lamentamos os factos. Uns rezam, outros queixam-se, outros criticam os políticos, outros encolhem os ombros e vão para a praia. O país é assim, um misto de impotência e lamentação constante, salvo as corporações dos bombeiros que denodadamente têm combatido este flagelo.

N/D
12 Ago 2003

As opiniões dividem-se e as soluções drásticas sobre este tema já levou alguém, em acalorada disputa de café, a chamar inconscientes aos organizadores da Volta a Portugal, pelo perigo que os ciclistas incorriam por pedalar nas estradas dum “país a arder”…
Somos como somos. Num poema que li há pouco sobre a condição do português, escrevia-se a seu respeito: “Foi um grande marinheiro, / sem talvez saber nadar…”. Decerto que pode ser-se um cruzador de oceanos sem se ter aprendido a dar umas braçadas na água. Mas também é verdade que a nossa identidade encontra constantemente no contraditório e no contraste dos altos e baixos a sua forma de ser. Por isso, todos os anos, durante os verões, os telejornais enchem-se de imagens de incêndios e de bombeiros, de populações aflitas e queixosas, de acusações e de revolta perante os autores de fogo posto, que parecem proceder criminalmente sem o mínimo risco de virem a pagar pelas suas acções criminosas.

No fundo, aceitamos os fogos com sentimentos de incapacidade e a reacção de censura, mas o que fazer perante tal situação? A voz de Amália, bem timbrada, ecoa aos meus ouvidos: “Tudo isto existe,/ tudo isto é triste,/ tudo isto é fado…”.

Nasceu-nos uma esperança, porque a Polícia Judiciária parece que, finalmente, em obediência a uma ordem superior, se encarregou deste tema. E começou a apresentar resultados quase imediatamente: foram presos uns tantos cavalheiros suspeitos, alguns com um perfil psicológico esquisito, que indiciam a prática deste tipo de atropelo penal. Sabemos, por outro lado, que se desconfia de interesses económicos inconfessáveis – pessoalmente não entendo muito bem a sua razão de ser.

Claro: todo o cidadão deve ser considerado inocente até ao veredicto que o declare culpado em tribunal. Mas à boca aberta fala-se dos pastores, dos madeireiros e não sei de que mais gente. Um ministro diz umas coisas plausíveis e inoportunas acerca dos homens da minha geração que andaram aos tiros por Angola, Moçambique e Guiné, e toda a gente lhe cai em cima, porque não foi politicamente correcto.

Ah! E depois vem a Oposição dizer cobras e lagartos sobre a competência do actual governo. Os “bloquistas”, os comunistas, os socialistas – estes um pouco mais comedidos – lançam invectivas verbais sobre quem manda. Mas é tão fácil apontar o que está mal!… O povo sofredor, porém, já não vai em panaceias políticas e, muito menos, dos nossos políticos da Oposição. Não é pelo senhor Louçã Henriques falar bem – o mesmo não pode dizer-se sobre o dom da palavra do senhor Carlos Carvalhas e, menos ainda, sobre a fonética plúmbea do senhor Ferro Rodrigues – que as coisas entram nos eixos. No mesmo café, o tio Joaquim, de cigarro ao canto da boca, dizia depois duma aguardente local gelada, bem sorvida, quando um deste nossos políticos oposicionista argumentava: “Estes gajos da política são todos iguais… Só sabem cantar de galo quando não estão no poleiro…”

E nós, cidadãos médios, o que podemos fazer? Alguém acredita que os nossos cidadãos vão começar a limpar as matas, quando elas não rendem e não há pessoal que o faça? Alguém acredita nos técnicos agrónomos que vêm, já o fogo queimou não sei quantos milhares de hectares, afirmar que haviam alertado atempadamente para esta possibilidade, mas que ninguém lhes fez caso? Alguém acredita que em matéria florestal o nosso país é uma espécie de atestado de incompetência das políticas que transformaram o ermo dos nossos montes e das nossas terras em manchas mais ou menos verdes de árvores, que agora a voragem insaciável do fogo devora? Em que é que acreditamos? O difícil, nesta matéria, é saber em quem e em quê. Resta-nos a esperança e também o ditado que nos diz: “Gato escaldado da água fria tem medo”. Provavelmente, a lição deste estio – valha-nos ao menos isso! – pode ser um acicate para nos comportarmos melhor. Mas… à esperança junta-se a dúvida: o tempo arrefece, os incêndios apagam-se, entra o outono e os nossos cuidados com o fogo, qual lagartixa inconsciente que se mete na toca, começam a hibernar… Em 2004, porém, haverá de novo verão e calor. Até lá…

E não é que o povo tem ditados para tudo: “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”…?
Estaremos condenados a prosseguir com a saga do poeta que dizia: “Foi um grande marinheiro,/ sem talvez saber nadar…”? Neste caso, do outro mundo, plangente, continuaremos a ouvir, deliciados e saudosos, a voz de Amália: “Tudo isto existe,/ tudo isto é triste,/ tudo isto é fado…”. Será mesmo que não passaremos desta sina?




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