Fotografia:
Aqueles olhos verdes

Uma escola é um mundo de gente. Agitação, ruído, muitas cores. Pessoas com os mais diferentes feitios.

N/D
11 Ago 2003

Não posso conhecer todos, mas gosto, às vezes, de ficar a olhar, reparando em muitas coisas. E penso que sei quais são os olhos mais bonitos da escola.

São verdes e estão, ainda por cima, no rosto mais luminoso de todos os que ali encontrei. É uma menina cujo nome desconheço. Deve ter 13 anos. Vejo-a sempre contente, nos intervalos das aulas. Nunca a vi sozinha: há sempre uma multidão à volta dela. Não sei que coisa faz para divertir os colegas, mas eles não a largam. Talvez brinquem, talvez se metam em brincadeira uns com os outros. Ouço risos…

Esta menina vive sentada numa cadeira de rodas.

Os colegas quase discutem uns com os outros, porque todos desejam empurrar a cadeira quando é preciso deslocarem-na.

Não corre por cima da relva, não faz as aulas de Educação Física, não dança. Não pode ter aulas senão no piso térreo. Se calhar há uma imensidade de coisas que nunca fará como os outros.

Mas há, na escola, outra pessoa sentada em cadeira de rodas. É um rapaz e sei o nome dele. Foi fácil perguntar-lho porque está sempre sozinho. Respondeu-me sem simpatia e não foi possível permanecer junto dele durante muito mais tempo.

Não sei quase nada deles.

Não sei se a menina tem toda aquela felicidade por se sentir acarinhada daquela forma pelos colegas, ou se os colegas a acarinham porque se sentem bem junto da felicidade dela. Sucederão ambas as coisas, penso eu, mas a segunda deve ser preponderante.

A alegria é como um íman. As caras fechadas repelem.

Não sei se o rapaz está mal humorado por os outros o deixarem sempre sozinho, ou se os outros o deixam sozinho por ele não ser simpático. Trata-se, talvez, de um círculo vicioso: está sozinho porque é triste e está triste porque se sente sozinho…

Mas é possível, ainda que com esforço, quebrar círculos como esse: podemos aproximar-nos das caras fechadas e semear um pouco da alegria que lá não existe. Ou, se somos nós as caras fechadas, podemos procurar os caminhos da alegria – abrindo portas para fora.

E há outra coisa fácil de concluir: uma cadeira de rodas não tem a mínima relação com felicidade.
Nem a cadeira de rodas nem o frio nem a fome nem a derrota nem a pobreza nem nenhuma dessas coisas que por vezes deixamos que nos torturem a existência.

Tenho tido, e hei-de continuar a ter, ocasiões para me lembrar daqueles olhos verdes. E dos outros olhos: aqueles de que não pude ver a verdadeira cor.




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