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A videirinha e o vivaço gabarola

Os triunfadores – eles e elas – notam-se mais no mês de Agosto.

N/D
10 Ago 2003

Os pequenos triunfadores tentam normalmente distinguir-se pelos carros caros e pela vistosidade dos cônjuges. É pouca coisa, mas, ainda assim, é ao que de mais eficaz se pode recorrer para suscitar a inveja lusa.
Falam alto e têm, em geral, maus modos. Os grandes triunfadores procuram distinguir-se pelos carros ainda mais caros, pela maior vistosidade dos cônjuges e por aparecerem nas revistas que o povo consagra. Gostam de evidenciar sinais comprovativos de uma vida com grande estilo.

Para os aspirantes a triunfadores e os triunfadores que querem subir de escalão, o fundamental na vida é ter e aparecer. Nestes dias de Agosto, os jornais têm falado de dois portugueses que lhes podem servir de modelo.

Correspondem a dois estilos bastante diferentes, mas há nela e nele qualquer coisa que espelha um certo modo de ser português. Ela no género videirinho. Ele no género vivaço gabarola. Ela chama-se Maria Elisa Domingues e é deputada do PSD. Ele chama-se Vítor Santos, tem o petit nom de “Bibi”, e é do Benfica.

Maria Elisa Domingues, como se sabe, foi eleita deputada da nação. Percebe-se porquê. Os seus artigos dominicais no “Diário de Notícias” foram mostrando a constância de um conjunto coerente de preocupações de natureza política.

Os dramas da humanidade ditaram, num determinado domingo, uma observação arguta: em Paris, “os ‘resistentes’ são tratados com mais cortesia nos cafés, nos restaurantes ou nos grandes armazéns onde o serviço era, regra geral, bastante arrogante”.

O estado da sociedade, num outro domingo, fê-la escrever: “Agradável almoço, num restaurante à beira-rio, gozando o prazer de um dos últimos dias de sol da época. Apesar de ser um dos restaurantes da moda, sempre cheio de gente conhecida, aqui não se descura a qualidade da comida”.

Os problemas do planeta também não ficavam esquecidos quando o destino proporcionava momentos de intimidade com os grandes do mundo, de quem, de resto, recebia os favores de inesquecíveis confidências: “Enquanto conversávamos, o Dalai-Lama comia com apetite.

Apreciou muito o pão, que era do género do pão saloio, e confidenciou-me que a sua mãe cozia um pão excelente! Comeu o caldo de agrião e, quando era servido de cabrito, pediu more (mais). O almoço é a sua última refeição do dia, antes de se recolher, pelas 20h30”.

As observações dominicais de Maria Elisa Domingues prefiguram todo um programa cívico que ultrapassa a dimensão paroquial: “Mesmo nos restaurantes em que, regra geral, é preciso marcar mesa com semanas de antecedência, é possível agora arranjar lugar, desde que haja o cuidado de assegurar que não estão reservados para um dos populares events ou functions da época. Os ingleses adoram festas de Natal, em particular desde que descobriram que, além de beber, também podiam comer bem”.

Toda esta energia reformadora não se podia evidentemente perder. Foi, por isso, compreensível que o PSD tenha querido rentabilizar o investimento que Maria Elisa Domingues tinha feito em estudo e reflexão políticas.

O excitante trabalho parlamentar da senhora já serviu, por exemplo, para que a nação soubesse, ainda através das oportunas crónicas dominicais, a que partidos pertencem os deputados que melhores gravatas ostentam no Palácio de S. Bento.

A deputada acaba agora de pedir a suspensão do mandato parlamentar por razões de saúde. Entretanto, apresentou-se na RTP onde encomendou um programa e foi de férias.

Os que não compreendem por que razões a RTP é a Santa Casa da Misericórdia de Maria Elisa (recorde-se que o canal público de televisão terá emprestado 12 mil contos à jornalista em Outubro de 1996, na altura em que a actual deputada desempenhava o cargo de directora de programas) são acusados de perseguir a senhora. Maria Elisa sabe – e esse é talvez o seu mais notável talento – fazer-se de vítima com uma competência digna de genuína admiração.

Vítor Santos é de outra extirpe. Um must no género vivaço gabarola. Há dois anos, o patrocinador do Benfica conheceu o estrelato ao revelar ao país que não entregava declarações de impostos desde 1997, conforme Inês Serra Lopes recordava na sexta-feira passada, em “O Independente”.

“Como é possível que o homem que na mesma entrevista assumia ter 10 milhões de acções da Sonae, entre muitas outras coisas – ‘tenho muita coisa, muita coisa mesmo’ -, não entregue declarações de rendimentos, assuma publicamente o crime e continue impune?”, perguntava candidamente a directora do jornal.

A manchete de “O Independente” era precisamente sobre esta personagem. De acordo com o jornal, “Bibi” tem um currículo invulgar: “gatuno de veículos”, “burlão”, “falsificador de travellers cheques” e “suspeito de corrupção”. Mas “Bibi” é um triunfador.

É dono dos restaurantes mais caros de Lisboa, o Mercado do Peixe e o Mercado da Carne, “onde se pode encontrar a melhor espinha e tutano da sociedade nacional”, e comprou a Casa do Castelo, “um dos lugares mais concorridos da noite algarvia que serve de cenário para as últimas fotografias de Paulo Portas e Cinha Jardim”.

A basófia de “Bibi” é mais do que justificada. Basta um exemplo para o demonstrar. “Nenhum destes senhores que está agora no Benfica passava do rés-do-chão dos bancos”, garantiu ele. Quando e onde “Bibi” chega, um tapete vermelho que homenageia não o trabalho, mas os expedientes desenrola-se até ao piso mais elevado. Não é de fazer inveja?




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