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A tragédia das omissões

Tenho lido, ao longo destes dolorosos dias de um país a arder, quase tudo o que se tem escrito sobre o drama que nos atinge: de um lado, queixas tão inflamadas como as chamas; do outro, acusações ainda pudicamente veladas, mas que um dia destes vão explodir na luta política que faz as delícias de gente que pouco mais faz.

N/D
10 Ago 2003

O que mais me tem interessado, porém, são as explicações que se vão adiantando para tamanha desgraça: uns falam de uma floresta mal pensada nas espécies que a compõem; outros, do descuido de gover-nantes, autarcas e proprietários que não curaram da vigilância e da limpeza.
Há também quem mencione a “economia do fumo”, que eufemisticamente afirma o crime do fogo posto; e quem refira as temperaturas anormais, como potencia-doras da calamidade.

As declarações e escritos que contactei transmitem a ideia de que, afinal, nada disto era inevitável, se… e mais se… e uma dúzia de outros ses…

Ou seja: toda a gente sabia que isto poderia passar-se. Mais: sabia, ao que parece, como evitá-lo. O que demonstra a minha suspeita: esta é, muito simplesmente, a tragédia das nossas omissões!…
Aceitá-lo vai ser obrigatório e fundamental, quando – apagados os últimos tições – chegarmos à fase de fazer também o rescaldo das consciências.

Este não é, como sabemos, o primeiro drama dos nossos descuidos mais recentes. E não será, infelizmente, o último. Por isso, muitas das insinuações, acusações e explicações que agora se debitam – e que repetem exclamações que ainda se arrastam na memória – vão reaparecer num outro momento, quando arder mais isto ou cair mais aquilo.

Enquanto procuramos respostas para estes dias escuros e noites de chamas, façam-se, entretanto, perguntas:

Como pode ser verdade que os responsáveis não sabem localizar os depósitos de foguetes?
Como pode ser verdade que não haja confiança entre os diversos intervenientes institucionais na resolução de problemas como este de que agora tratamos?

Como pode ser verdade que haja uns kits apodrecidos na altura de serem usados?

Como pode ser verdade o relevo dado a um jantar de generais zangados porque faltam brinquedos para a guerra, enquanto vivem desarmados na guerra os soldados da paz?

Como pode ser verdade que, com tantos adiamentos e leis feitas a martelo, os políticos tenham coragem de se ocuparem da lana caprina das suas vaidades parlamentares?

Eu admito que olhar por este país dá, realmente, muito canseira. É muito mais fácil ir em trabalho até Sevilha!…




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