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Litania de desgraças

Antigamente, quando havia calamidades que afligiam a lavoura, – como a seca e a estiagem prolongadas – a Igreja costumava proceder a preces públicas, em que o homem simples da lavoura, não só invocava a protecção de todos os santos, como ainda pedia a livração das intempéries e desgraças, que atribulavam a vida campestre.

N/D
8 Ago 2003

Hoje, perante a lenga-lenga de calamidades sociais e jurídicas que, quotidianamente, os jornais, a rádio e a televisão nos noticiam, será também o caso de nos virarmos para os santinhos da nossa devoção e pedir ajuda e protecção.
Por isso, «da prisão preventiva e (da falta) do segredo de justiça; das escutas telefónicas e das denúncias caluniosas», … «libera nos, Domine!…

Perante qualquer possibilidade de desgraça, o povo português sempre julgou que essas coisas só sucedem aos outros.

E, porque só se aplicavam aos outros, ainda há pouco tempo, quer a prisão preventiva, quer as escutas telefónicas, quer o segredo de justiça, viram ampliados os tempos e os campos de intervenção, precisamente, por quem, hoje, lhes está a sofrer as consequências.

Como disse, tratava-se dos outros e os políticos sempre se consideraram individualidades isentas e livres destas tremendas chatices.

Só que, por azar e infortúnio, a desgraça também lhes foi bater à porta … e de que maneira!…
Então, caiu o Carmo e a Trindade!…

Diz-se, agora, à boca cheia, que isto é a «prova provada» que, perante a lei todos somos iguais.
Talvez!… Que é prova e dura, estou de acordo; agora, que a prova está provada, será bom esperar um pouco.

É que o movimento de desconforto que foi desencadeado não é normal e mostra a toda a gente que se trata de uma situação excepcional, que não deixa adivinhar a tal equidade de qualquer cidadão, perante a lei.

Todo o mundo se mexeu.

Até o Presidente da República que assistiu, sereno e impávido, ao reforço e alargamento de prazos das respectivas penalidades, anda numa barafunda diplomática, almoçando com políticos e jantando com juízes, numa esforçada tentativa de serenar ânimos e refrear ímpetos.

Não vou discutir os poderes e as atribuições, quer do regime presidencial, quer do sistema semi-presidencial.

Apenas, registo que deve ser respeitada a independência de cada instituição política.

Os políticos não se devem intrometer no trabalho dos magistrados e o Governo e Presidência da República devem cada qual situar-se no seu espaço.

Para já, os juízes são os bodes expiatórios, porque vêm cumprindo as leis que se lhes foram apresentadas.

Os políticos, que fizeram as leis, recorrem a diversos álibis, na tentativa de alienar culpas e aligeirar responsabilidades.

A verdade, porém, é que foram eles que fizeram as leis e foi a Presidência da República quem as promulgou. Assim sendo, ambos devem reconhecer o exagero circunstancial e proceder à indispensável reforma.

O resto não passa de «faits divers» pouco divertido.

No meio disto tudo, uma coisa assalta a mente de todos nós: – porque só, agora, apareceu este desusado movimento e esta desconfortável situação política?…

Não dou a resposta, porque todos a sabem e a têm debaixo da língua.

Limito-me, parafraseando Guerra Junqueiro, a exclamar: – «pobres dos pobres… são pobrezinhos»!.




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