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Bonito, meu filho!

Eu ouvi uma mãe segredar ao seu filho, na festa da Primeira Comunhão, na igreja duma linda terra lá para os lados do Marão. Uma igreja que é de valor histórico pela sua antiguidade, pela sua beleza, pela sua riqueza e por estar ligada à evangelização da região a partir do século X, pela presença activa dos frades que se acolhiam no belo Mosteiro. Mas, diga-se, uma igreja que está sendo desprezada ou abandonada pelos Serviços de restauro dos Monumentos, porque a precisar urgentemente de obras de reparação. O seu pároco tem sido incansável em pedir, mas sem ser ouvido,… Este como outros mosteiros foram factor de desenvolvimento cultural à sua volta.. Aqui se misturou sangue luso-cristão e sangue mouro nas lides que ensanguentaram a terra há mais de mil anos. O Bispo do Porto, D. Sizenando, aqui foi morto.

N/D
8 Ago 2003

Por tudo isto, esta é terra de boa gente. Terra de boa mesa, de bons agricultores através dos tempos. Vila Boa do Bispo, assim é chamada. E ainda: de Santa Maria. Nas margens do Tâmega, com a albufeira do Torrão a seus pés.
Pois era dia de Primeira Comunhão nessa terra. Eram mais de cem crianças – um número que faz inveja a muitas terras em que o déficit demográfico é simplesmente pavoroso. Festa da comunidade.

Festa para as crianças. Festa paras os/as catequistas. Festas para os pais. Festa para o pároco que aqui moureja há mais de trinta anos, com uma vida entretecida por elogios de uns e compreensões de outros. Afinal é assim a vida. Mas pelo menos tem dado o corpo ao manifesto em dezenas de anos de ensino secundário, em alguns anos ao serviço da Casa do Povo e dos organismos de serviço à comunidade, como centros de dia, trabalhando com uma boa equipa de leigos. E isto multiplicado por quatro freguesias. Diga-se de verdade, que hoje ser pároco não é nada fácil, porque as pessoas dificilmente compreendem o que é ser responsável da comunidade, que nem sempre pode agradar a todos os gostos. Mas é sempre a presença da Igreja na comunidade ainda que em vasos frágeis, como diz S. Paulo.

Eram mais de cem crianças, ia dizendo. A cerimónia decorreu nos moldes do costume, num ambiente de fé, de devoção, de emoção. Mesmo os que não “exageram” nestas coisas da religião, estavam sintonizados pelo ambiente, porque é sempre bonito de vez em quando pensar em Deus e descobrir que afinal a vida tem um sentido ou então sempre ficamos mesmo atrapalhados perante as dificuldades que a vida nos apresenta e a que não sabemos dar solução. Por exemplo: a doença e a morte!

O coro esmerou-se. As pessoas deram vida à liturgia. E a palavra do Pároco fez-se ouvir também numa ocasião em que não era costume falar: para informar, para partilhar, para comunicar. Mas o quê?

Para chamar a atenção da assembleia para uma ausência entre as crianças da Comunhão. Estava menos uma: faltava o Bruno. Sim, ele, o menino que andava nos ensaios. Faltava ele mesmo. Dera entrada dias antes no Instituto de Oncologia. E os seus pais estavam lá com ele.

Mas o pároco continuou: o IPO, quando soube que o Bruno ia fazer a sua Comunhão, organizara-se para que o Bruno também tivesse a sua festa, e, na mesma hora que os seus companheiros, o Bruno também fazia a sua primeira comunhão. Tudo bem combinado com o pároco. Bonito.

Fiquei surpreso e emocionado. E os ouvintes também. Os pais pensaram: cada um dos filhos podia ser hoje o Bruno! Vi as lágrimas grossas e abundantes caírem pela cara abaixo e um beijo ao seu menino/a ali presente, numa atitude amorosa de acção de graças ao Senhor da vida. E uma palavra de alento e coragem: “Bonito, meu filho!”.

Dizia o Bruno uns dias antes: “Eu no dia da primeira Comunhão ainda serei vivo, mas depois…”
Merece um louvor a atitude dos serviços do IPO. Mostraram bem o quanto para eles vale a pessoa do doente, com seu problemas e suas preocupações. E a atitude do Bruno é genuína. Coisas de crianças, diremos. Coisas de Deus, deveríamos dizer.

Há coisas dignas de serem contadas!




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