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Uma canícula insuportável

Ler o jornal no mês de Agosto é sempre a mesma coisa: metade do país vai a banhos, os imigrantes regressam a casa, os incêndios continuam a destruir as nossas florestas, os clubes de futebol andam no mercado à procura de craques e, acima de tudo, está uma canícula insuportável. O país político e mediático, pelo menos aquele que não desapareceu para um qualquer paraíso estival, parece dar sinais evidentes dos profundos malefícios que o calor e o excesso de exposição ao sol podem provocar nas nossas desprotegidas cabecinhas, pelo menos a julgar pelas notícias dos últimos dias.

N/D
5 Ago 2003

Dir-me-ão uns que a minha visão é sectarista, infundada e leviana, mas eu limito-me a aceitar que possa ser simplesmente demasiado optimista, e passo a explicar: com a quantidade de diatribes, polémicas diversas e todo o género de atitudes destemperadas com que a maioria dos nossos responsáveis nos tem brindado nos últimos tempos, a única hipótese de não desesperarmos é acreditarmos piamente que tudo isto se deve ao excesso de calor, e acreditarmos nos boletins metereológicos que anunciam que brevemente tudo vai voltar ao normal, ainda que não se saiba exactamente quando. Em suma, concordem comigo se quiserem, mas eu acredito no mito da influência malévola do excesso de sol e do calor sobre a capacidade intelectual dos nossos responsáveis como uma criança acredita no Pai Natal. Não faz mal a ninguém e é bastante reconfortante.
Mal estaríamos nós se tivéssemos de conformar-nos com a ideia de que um país que se quer normal viva liderado por pessoas que acham, sem que uma insolação das valentes lhe tenha afectado o raciocínio, que as leis que eles próprios fizeram se tornam injustas, medievais e ditatoriais no momento em que lhe são aplicadas, ou se admitíssemos algum resquício de normalidade na perda de confiança de um alto responsável militar no ministro que o tutela, quando a lógica da hierarquia é precisamente a inversa. Por mais que a minha versão seja desmentida pelos factos, admitir a possibilidade de a recente ressurreição da “tese da cabala” do Dr. Ferro Rodrigues poder ser motivada por outra razão que não um delírio causado por este calor que nos vai derretendo, obrigar-nos-ia a considerar, como o Dr. Alberto João Jardim, a falência do sistema político-constitucional da III República.

Por ourto lado, se atentarmos à realidade bracarense podemos verificar uma variante atípica da doença que recentemente tem assolado os responsáveis portugueses. Todos sabemo que Braga tem um microclima político muito particular, arrefecido por mais de um quarto de século em que o poder se concentrou nas mãos de uma única pessoa. No entanto, se à recente vaga de calor própria da estação adicionarmos o calor próprio das Paixões, o resultado não pode deixar de ser uma variante ainda mais devastadora de insolações. Não espanta, portanto, que tenha sido a propósito de um Estádio das Paixões que tenhamos ouvido a grande pérola de Verão do nosso edil, que agora acha que tem o direito de responder a perguntas de índole política formuladas pela oposição nos locais próprios apenas quando lhe der na real gana, como se ser Presidente da Câmara lhe desse um estatuto semelhante ao de um senhor feudal. É caso para dizer que, ainda assim, o calor da paixão é capaz de ser o mais perigoso de todos…

Por todas estas razões e por muitas mais é que defendo que a causa de todos estes acontecimentos extraordinários deva ser atribuída a este calor insuportável que se faz sentir no nosso país e que, a bem de todos deve acabar já em Setembro, sob pena de entrarmos num processo de autodestruição se chegarmos à conclusão que os nossos responsáveis são mesmo assim. Enquanto não passa a canícula, vou a banhos e não me preocupo. Mas, pelo sim pelo não, vou ter cuidado com o Sol, que isto não está para brincadeiras.




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