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Aldeia global: os filhos e os enteados

Se, numa aldeia da nossa terra, o presidente da junta decidisse dispor de verbas para ajudar a sanar algumas doenças que atormentassem os seus moradores, qualquer pessoa de bom senso diria que o dinheiro seria justamente empregado em prol das mais graves e das que mais vítimas causassem entre a população. Sentiria verdadeira repulsa, pelo contrário, se o mesmo autarca decidisse proteger com verbas mais consistentes a melhoria das condições de cura daquele tipo de enfermidades que atacasse, de modo prioritário, as pessoas ricas. Seria uma discriminação nojenta e verdadeiramente injusta, ainda que se tratasse de maleitas graves.

N/D
5 Ago 2003

Nesta aldeia global – o mundo dos nossos dias -, as supremas autoridades do planeta permitem que se consagre à investigação das doenças que constituem os maiores flagelos mortais dos seus moradores menos de 10% dos gastos totais da pesquisa científica destes campos.
Exemplificando. Fomos todos alertados e devidamente assustados com o problema da pneumonia atípica. Registaram-se 8.437 casos de repente. Num ápice, a investigação começa a detectar as causas desta anomalia. Gastam-se milhões de dólares, os noticiários televisivos e dos outros “media” encontram na evolução deste mal um prato forte. Sentimo-nos todos aterrados e até indignados com as deficiências sanitárias da China, com os poucos cuidados e o secretismo do seu sistema político, que só quando não tem outro remédio confessa a sua negligência e a realidade desta epidemia. Morrem 813 pessoas e do nosso íntimo sai a exclamação: “Que horror!”

A nossa gratidão vai de encontro àquelas entidades de todo o mundo que gastam muitíssimos dólares com doenças graves, a fim de que, logo que possível, se descubra a forma de as evitar, ou, pelo menos, de atenuar os seus padecimentos. Segundo a Organização Mundial de Saúde destinaram-se, ultimamente para a asma, 140 milhões de dólares, 300 milhões para o alzheimer e 950 milhões para a Sida.

Também ficamos satisfeitos quando tomamos conhecimento de que a investigação farmacológica tem investido fortemente para atalhar os problemas levantados pela hipertensão, pela impotência, pela obesidade e pela calvície. Qualquer destas situações são indesejáveis para nós. Quem pode não ser gordo, não o é… desde que a dieta não se torne um tormento; e a calvície manifesta-se sempre como um factor estético desagradável… Etc.

Contudo, se nos enfrentamos com doenças muito mais graves e mortais em todo o mundo, sentimos um arrepio de revolta ao sabermos que a investigação farmacológica as trata como uma espécie de acidente inevitável e passa ao seu lado com um desinteresse olímpico. Voltando a dar exemplos, de acordo com os dados da OMS: a tuberculose atinge cerca de 8 milhões de pessoas por ano, das quais 2 milhões acabam por morrer; e em toda a terra existem cerca de 300 milhões de casos agudos também anuais de malária, com perto de 1 milhão de falecimentos. Pois bem: estas duas doenças mereceram à investigação farmacológica 1% do seu orçamento total; a malária recebeu 60 milhões de dólares; sobre a tuberculose não possuímos dados. Mas a própria OMS reconhece que qualquer das outras enfermidades já citadas, desde a asma à Sida, são menos mortais do que estas duas. E isto para já nem se falar da hipertensão ou da impotência, entre outros transtornos de saúde também referidos, que mereceram o favor e a primazia da atenção da investigação farmacológica em matéria de orçamentos de pesquisa, com verbas profundamente mais robustas do que nos casos da tuberculose e da malária.

Que razões levam a que a indústria farmacêutica proceda deste modo? Quando a saúde é olhada pelo prisma do rentável e segundo uma óptica capitalista dominante, a aldeia global automaticamente se divide em “filhos” e “enteados”. Os primeiros são os que têm a sorte de viver no mundo desenvolvido, economicamente pujante. Aparece uma doença complicada? Há dinheiro para investir; a investigação acaba por ser rentável; tudo corre sobre rodas… No segundo caso, eis o universo da carência e das populações combalidas, afectadas endemicamente por males que não sabem nem podem evitar por si mesmas, como também por si mesmas não possuem meios eficazes para as contornar. Morrem aos milhões, contagiam-se em igual escala, perante a indiferença e a resignação dos “filhos ricos”, que as evitam como um perigo de contágio e até aprovam que haja gente boa como a Madre Teresa de Calcutá que procure remediar os seus problemas, chafurdando heroicamente nessas cloacas humanas que tanto nojo e lamentações estéreis lhes merecem.

Felizmente, acaba de ser criada uma organização internacional, Drugs for Neglected Diseases (DND), que vai procurar criar por ano e até 2015 dois medicamentos eficazes, a fim de que aquilo que chamam “as doenças esquecidas” (tuberculose, malária, doença do sono, etc.) conheçam melhores dias no seu tratamento. Colaborando com a OMS, dela fazem parte os Médicos sem Fronteiras, Instituto Pasteur, Ministério da Saúde da Malásia, Conselho para a Investigação Científica da Índia, Fundação Osvaldo Cruz (Brasil) e o Instituto de Investigação do Quénia. Arranca com um orçamento de 250 milhões de dólares. Como não desejar-lhe as maiores felicidades e o maior número de apoios possível?




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