Fotografia:
A praga dos incêndios

Na data em que escrevo, lavram incêndios gigantescos em diversas localidades do País, mormente em Oleiros, Castelo Branco, e Vila de Rei.

N/D
5 Ago 2003

São imagens dantescas aquelas que chegam até nós através das pantalhas televisivas. E a gente se pergunta como é possível que isto aconteça, atendendo a que focos apareçam, sucessivos, a distâncias sem contágio.
Estes factos não só representam um empobrecimento desta velha nação e um agravamento das condições ecológicas e sanitárias, mas também um enorme sofrimento das pessoas que vêem os seus bens serem reduzidos a cinzas. São chocantes as lamentações e as lágrimas de pessoas contactadas pela comunicação social.

A dor causada por este desastre nacional tem afectado governantes e autarcas. O senhor Presidente da República tem-se deslocado a essas zonas devastadas para lamentar o sucedido e chamar a atenção para a gravidade das causas, sobretudo voluntárias e humanas.

É digno de registo o pedido da presidente da Câmara de Vila de Rei: – Denunciem os criminosos, quem tiver conhecimento de autores de focos de incêndio, denuncie-os às autoridades policiais.

Entendo, porém, que neste aspecto a nossa justiça é incongruente e manca: envolveu-se numa luta feroz contra pessoas pederastas que o foram ou não foram ou estiveram longe de o ser, e despreza os criminosos que destroem impiedosamente o património nacional. Assim desabafava um homem do povo: – Andam a prender os pedófilos enquanto os verdadeiros criminosos andam à solta a queimar as nossas florestas e os nossos bens!

A comunicação social referiu que já foram identificados cerca de 100 indivíduos suspeitos de crime de fogo posto. E a gente pergunta: o que é feito desses malfeitores? Não continuarão à solta a rir-se do sucedido?

O que pode acontecer é que comece a funcionar a justiça popular. Recordo o que dizia um sacerdote. Na sua terra, há anos, houve vários incêndios e as pessoas começaram a desconfiar dum habitante da localidade. Então começaram a vigiá-lo e viram-no de facto a provocar mais um, retirando-se ele de imediato e viajando até à vila onde havia feira semanal. Quando regressou de autocarro, tinha um grupo de homens à sua espera. Deram-lhe tantos “mimos” que aí se finou com as lembranças dos “feitos gloriosos” que praticou.

O que está a acontecer em Portugal revela uma ausência de educação muito grande. Podem as pessoas não atear fogos intencionalmente, mas podem-no fazer de facto descuidadamente com um fósforo ou um cigarro mal apagados, lançados ao acaso para o chão.

Houve anos em que foi feita campanha através da televisão alertando para os cuidados a ter com a natureza silvestre e chamando a atenção para o bem comum que ela representa nos múltiplos aspectos, desde a purificação do ar até ao fornecimento da madeira para móveis e construções e ainda como combustível para aquecimento em tempo de inverno.

Nos últimos anos, nem um sinal ou simples admoestação. É só publicidade de produtos, por vezes os mais banais, incluindo os relacionados com miúdos sentados em penicos.

À tragédia incendiária actual não é indiferente a nossa situação política e social dos últimos meses, desde o flagelo do desemprego, que não pára de crescer, até à rua de amargura por onde tem passado a nossa justiça, que tem oferecido um dos mais tristes espectáculos da nossa história.

Costuma-se dizer que cada um tem aquilo que merece. Talvez estejamos a sofrer as consequências dos nossos males e pecados. Oxalá Deus se compadeça de tanta família inocente que tem sido vítima de tão grande calamidade e nos dê governantes sábios e prudentes que saibam conduzir o barco da pátria por rotas serenas e seguras!




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