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Ver à luz das estrelas

Em meu redor, escuridão. Respiro o ar ainda quente daquela hora da noite. Ao longe, um cão ladra, quase indistintamente. Mas perto, as cigarras, incansáveis na sua cegarrega, criam o ruído de fundo que acompanha musicalmente a visão daquele ecrã gigantesco, ponteado de luz, que dá pelo nome de firmamento.

N/D
4 Ago 2003

Em meu redor, escuridão. Respiro o ar ainda quente daquela hora da noite. Ao longe, um cão ladra, quase indistintamente. Mas perto, as cigarras, incansáveis na sua cegarrega, criam o ruído de fundo que acompanha musicalmente a visão daquele ecrã gigantesco, ponteado de luz, que dá pelo nome de firmamento.
Deitado de costas, em chão áspero e morno, contemplo o céu. Em larga avenida, de sul para norte, desenha-se distintamente a Estrada de Santiago. Distingo claramente a Ursa Menor e, um pouco mais para a direita, a constelação Cassiopeia. Dou-me conta de que já soube ler o céu com mais agilidade do que hoje.

Fico ali um ror de tempo, contemplando as estrelas (serão planetas? cometas?). De quando em vez, uma luz avança rectilínea em pisca-pisca: lá vão em viagem aérea os passageiros da noite. Mais raramente, uma estrela cadente rasga o ecrã celeste de forma inopinada, extinguindo-se mal lhe consigo pôr a vista em cima. Há pequenos sinais de luz que de tão débeis, parece desaparecerem, para voltarem pouco depois. De resto, tudo parece no seu lugar: imponente, calmo, solene, eterno.

Uma levíssima, quase imperceptível aragem, agita ao de leve as folhas de uns carvalhos. E ali estamos: o céu estrelado, a terra áspera, uma leve aragem. E eu, ali a contemplar, quase agredido por tanta paz, com os pensamentos revoltos, carecendo deste estar sem pressas nem metas, simplesmente estar, deixar-se ir, entregar-se à contemplação.

Ali no escuro de uma Lua ainda quase Nova, deixando o tempo correr, as ideias caóticas serenarem um pouco, dá para sentir, de vez em quando, acenderem-se cá dentro, pequenas luzes bruxuleantes, qual reverso das luzes celestes.

É como se o escuro permitisse ver. Como se a ofuscação do quotidiano e o encandeamento das luzes impedisse o acender da luz interior. Como se esta luz interior, para se acender, dependesse do escuro exterior. Como se a impossibilidade de ver para fora abrisse as portas do ver para dentro. Ver “tantas coisas que não vemos nem mesmo perto dos olhos”.




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