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Uday e o Sábio

1- Histórias do Oriente. O título deste artigo, “Uday e o sábio” poderia bem sugerir, na imaginação dos senhores leitores, que vamos falar aqui de algum capítulo das “Mil e uma noites” ou de outra qualquer obra-prima da literatura arabo-muçulmana. Nada mais ilusório. O caso é passado na actualidade recente. Uday é um dos filhos de Saddam Hussein, o antigo presidente do Iraque.

N/D
4 Ago 2003

E o sábio é o bioquímico britânico David Kelly, perito do governo de Blair na área das “armas de destruição massiça”. Uday foi assassinado pelo exército americano de ocupação da sua Pátria antiquíssima. O sábio foi também assassinado (ou compelido ao suicídio, o que vai dar ao mesmo) mas agora por agentes obviamente afectos ao actual governo do Reino Unido. Ressalve-se que este governo mais parece uma embaixada americana em Londres, que um verdadeiro órgão de Autoridade Estatal, autónomo e pertencente a uma nação que já foi bem grandiosa, a Inglaterra. Mas que hoje é um exemplo de “sheer decadence”.

2 – Comportamentos “mafiosos”. Até ao presente, pensava-se que eram apenas os membros da Mafia (ou de organizações similares estrangeiras) que costumavam apagar as provas dos seus delitos, eliminando todos aqueles que destas tiveram conhecimento. Pelos vistos este comportamento delinquente tem tido comprovado sucesso (por demissão ou decadência da Autoridade do Estado). E como a Democracia idolatra “o sucesso”, ela começa a adoptar agora este comportamento “de sucesso” dos descendentes dos piratas mamertinos e dos primos do sábio Arquimedes, o siracusano, aliás, “gente di rispetto”.

Só que, por este tortuoso caminho, a Democracia descaracteriza-se, uma vez que passa a adoptar métodos que também são características dos sistemas políticos seus rivais, as Ditaduras… Há até quem já tenha tentado impôr o falso conceito de uma fictícia categoria intermédia entre Democracia e Ditadura, a dita “democracia musculada”… Só que esta última não passa na prática duma Ditadura, habilmente disfarçada pelo recurso abundante a um fraseado e a métodos pseudo-democráticos (que criam no Povo a ideia ilusória de que estão a ser governados por uma Democracia).

3 – O peso do depoimento do prof. Kelly. Kelly não era uma pessoa qualquer. Era o perito inglês que tinha visitado o Iraque cerca de 40 vezes. E ele asseverara à BBC que o governo de Blair, Mandelson, Hoon e Straw exagerava os factos e deturpava os relatórios. Que o governo mentia, enfim. Mentia para enganar o Povo e para o arrastar, todo contente, para uma pseudo–cruzada hollywoodesca, revivalista de episódios da 2.ª Guerra Mundial. No pressuposto, é claro, de que era uma guerra fácil de ganhar. E nisso, acertaram. E nisso, também, será de louvar a atitude do estado-maior iraquiano, que logo depois dos primeiros tiros foi retirando, retirando; e nem sequer deu aos americanos alguma espécie de combate rua a rua, em Bagdade. Protegendo assim vidas e pensando que protegeria os edifícios da destruição e dos saques. Contudo foi o que se viu.

Ora, a partir do momento em que o prof. Kelly, sem dúvida alguém afecto ao governo trabalhista, se demarca da estratégia de mentira acerca do “perigo mundial” que representava o “terrível tirano de Bagdade”, as hipóteses de fracasso de Blair e W. Bush nos seus propósitos de se auto-justificarem perante a opinião pública mundial começam finalmente a acentuar-se. Portanto, decidem eliminar o cientista. Assim castigam a sua “deslealdade”, que aliás não passa do reverso da moeda da lealdade do cientista em relação à sua consciência de homem sério. Assim também se protegem de revelações ulteriores de Kelly acerca das verdadeiras proporções da fraude.

Note-se contudo a este respeito, que Kelly nunca admitiu que era sequer a principal fonte das informações que a BBC tinha divulgado. E pouco interesse tem agora, que a BBC venha dizer o contrário… É que Kelly já cá não está para a contrariar. O escândalo em si é que deveria ser sufi-ciente para a mudança de inquilino no n.º 10 da rua Downing, na muito, muito brumosa cidade de Londres, cada vez mais brumosa…

4 – Uma relação temporal entre as mortes de Kelly e de Uday? Com o assassinato de Kelly, a patética posição das tropas nova-iorquinas no Iraque (que além do mais é caríssima…) fica ainda mais difícil de se auto-justificar. Estão lá para impor a Democracia, dizem… Mas a Democracia é coisa que se imponha por um exército conquistador estrangeiro? Já tem acontecido, mas o processo fica para todo o sempre inquinado com uma semente de destruição.

Portanto, para abreviar o fim desta triste página da história norte-americana, a eliminação dos membros da dinastia de Saddam Hussein passou a ser algo de ainda mais premente. Pode até suspeitar-se de que o exército ocupante já teria há mais tempo conhecimento do paradeiro dos filhos e herdeiros de Saddam. E que tencionava provavelmente, como é da praxe dos anti-fascistas, julgá-los em qualquer mediático processo-fantoche (como Milóshevitch ou outrora Laval). Só que agora, a opinião pública mundial estava cada vez mais desfavorável aos americanos.

5 – Dez mísseis contra quatro homens. Pelas negativas repercussões da morte de Kelly, o tempo urge; e toca a abater como bichos os herdeiros do ditador. Escondidos num prédio e resistindo com armas ligeiras? Nesse caso, manda a valentia dos tataranetos dos caçadores de índios que se lhes atire, como foi o caso, com 10 mísseis, já que foi para estas situações que eles foram inventados. Sai mais caro, mas o “serviço” é feito com mais segurança. Aliás quem sabe, estes 10 mísseis não terão sido uma opção estratégica (desviante, é certo) mas baseada na célebre máxima de Nathan B. Forrest (1821-77), um notável general confederado cuja biografia também desviante, não é para aqui chamada; e que dizia “get there first with the most men”, isto é, “corram já para lá com o máximo possível de tropas”?

Assim, o matreiro Qusai e essa elegante figura de jovem árabe, por sinal caluniadíssima, que era Uday Hussein, saem de cena da História Universal. Apenas para dar lugar, agora ou mais tarde, no Iraque e fora dele, a uma plantação de ervas daninhas fundamentalistas. Boa visão estratégica, a dos americanos…




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