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Alberto João Jardim, um modelo para os caciques

O Verão nacional também tem as suas rotinas. Os clubes de futebol compram e vendem jogadores, Cinha Jardim e Paulo Portas entretêm-se, os jornais fazem inquéritos de férias, a televisão enche-se de bombeiros, Portugal vai para o Algarve, o número de vândalos com um volante nas mãos é maior do que o habitual, Quim Barreiros actua em todo o lado, Alberto João Jardim actua no Chão da Lagoa.

N/D
3 Ago 2003

É neste local que o chefe do PSD da Madeira interpreta todos os anos os seus velhos êxitos. No domingo passado, tornou a fazê-lo, convidando, uma vez mais, a assistência a dançar ao som dos mais do que estafados “O Sistema faliu”, “Este Regime é um Bluff”, “Basta de palhaçada” e “Os Comunistas estão em todo o lado”.
A festa do PSD da Madeira é sempre igual na substância e no efeito. Tudo é, portanto, demasiado previsível. A iniciativa trouxe, ainda assim, uma pequena novidade. Uma novidade no campo da indumentária política.

Quem a vestiu não foi Alberto João Jardim – que sustenta que “somos o país com mais comunistas por cabeça no aparelho de Estado” (sic)-, mas as jovens militantes que, segundo noticiou o “Público”, usaram t-shirts com a inscrição “levantem bem alto o pau…” à frente, e, por detrás, “…da bandeira do PSD”.

Os festejos dos sociais democratas madeirenses contaram com seis dezenas de “tasquinhas”. Manda a tradição que, em cada uma delas, se emborque um copo com as mais variadas bebidas (vinho, licor, rum, uísque, vodka, etc.). O circuito alcoólico não pode deixar de produzir efeitos nas arengas de Alberto João Jardim.

Na sua mais recente intervenção dominical na TVI, o professor recordou que, enquanto líder do PSD, também percorreu a rota das “tasquinhas”, que, na altura, eram 48. Avisado, Marcelo Rebelo de Sousa, ao fim de seis “tasquinhas”, dava apenas um gole e passava o copo a outro (o outro era, numa das vezes, José Luís Arnaut, o actual secretário-geral do PSD). Com Alberto João Jardim, a coisa era diferente. O presidente do governo regional da Madeira “bebia em todas as ‘tasquinhas'”.

De acordo com o relato de Marcelo Rebelo de Sousa, Alberto João Jardim, num ano não especificado, “depois de beber aqueles copos todos”, foi “meditar” – quer dizer, foi, como explicou Marcelo, “à casa de banho no campo”. O resultado da meditação foi literalmente traumático – meditar é um perigo -, pois Jardim acabaria por partir um braço.

O homem, contudo, “continuou na festa, não quis ir para o hospital como o médico lhe recomendava e tocou bateria – um hábito na festa – até às tantas da noite”, lembrava Marcelo, com um espanto que esquecia as capacidades anestesiantes do álcool.

Marcelo designa Jardim como “uma força da natureza”, uma classificação particularmente ajustada a quem tão mal se orienta nos subtis caminhos da meditação. Para qualquer pequeno, médio ou grande cacique, Alberto João Jardim é um bom modelo. E é também por isso que ele pode muito bem ser o paradigma do que de pior pode ter um sistema formalmente democrático.

O que o chefe madeirense tem de melhor ou de pior – conforme os pontos de vista – não é a pouca destreza reflexiva, mas o poder dizer ou fazer o que lhe apetecer sem que daí advenha qualquer consequência.

O sonho de qualquer cacique é controlar totalmente os meios de comunicação social. Alberto João Jardim tem tido, nesse capítulo, uma actuação própria de sítios de baixa civilidade democrática.

A coisa é de tal forma que, no início do mês de Julho, não teve qualquer pudor em admitir que as mudanças recentemente realizadas nas direcções e chefias das delegações da RDP e RTP na Madeira tiveram o propósito de servir os desígnios políticos do governo que chefia.

No domingo passado, Jardim fez um brinde com um cálice de licor de eucalipto, desejando que o jornalista do “Público” Tolentino de Nóbrega “fique desempregado”, por alegadamente, com outros correspondentes locais, “denegrir a imagem da região”.

Para degradar a imagem da região, basta noticiar o que o Tribunal de Contas tem vindo repetidamente a dizer sobre o modo como Alberto João Jardim dispõe dos dinheiros públicos, não acatando, aliás sem consequências, as inúmeras recomendações que o Tribunal de Contas tem feito.

Desprezar as leis e os organismos que existem para as fazerem cumprir é outros dos ideais de qualquer cacique. Alberto João Jardim é o que mais perto consegue chegar desse sonho. Pelo menos, é dos que disso mais se gaba.




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