Fotografia:
A Brecha

Parece-nos que a ilegalidade no mundo das migrações é o pão amargo que os povos terão de ir comendo. Mesmo o mais feroz controle não tem evitado as infiltrações pelas fronteiras adentro. E mesmo que as nossas fronteiras estejam abertas apenas aos membros comunitários, doutras comunidades entraram por elas adentro e por aí ainda anadam aos milhares. Os políticos sabem-no, os polícias também, assim como os serviços de fronteiras.

N/D
2 Ago 2003

Apesar dos repetidos apelos à legalidade, o nosso Governo sabe que algumas dezenas de imigrantes ilegais trabalham nas nossas obras dos caminhos de ferro, dos estádios e demais construções e outros serviços.
Com a visita de Lula da Silva (Presidente do Brasil), os brasileiros obtiveram um “bónus”. Agora, só não se legaliza quem não quer, pois basta ter um contrato de trabalho e ir ao Consulado brasileiro.
Quem não ficou muito contente com este “bónus” foram os imigrantes que estão na mesma situação e pertencem a outras comunidades étnicas. É o caso para dizer: “ou haja moralidade ou comam todos”. Não sei bem como é que o Governo vai descalçar a bota!

Alargar este “bónus” a todas as comunidades lusófonas? Também às restantes comunidades que já fazem parte da União Europeia? E continua a haver trabalho para uns tantos milhares a mais?
Defendo que a imigração deve ser programada e racionalizada e a mobilidade não pode ser feita à balda. As capacidades de trabalho não são infinitas, os lugares de trabalho variam conforme o crescimento económico e o acolhimento está dependente de muitos factores sociais. As próprias razões culturais devem ser tidas em conta e mesmo as religiosas e familiares.

Temos no país mais ou menos os mesmos imigrantes que temos de desempregados. Em outros países acontece a mesma coisa, nomeadamente na Alemanha. Alguns devem estar já a pensar: mandem-se os imigrantes embora e os nossos desempregados já têm os seus lugares de trabalho! Mas as coisas não serão, assim, tão simples nem tão lineares. Por certo que muitos continuariam desempregados e outros continuariam a emigrar.

Em primeiro lugar, a imigração/emigração é um problema político. Quer isto dizer que deve ser equacionado e reflectido no mundo da política. Para que isto seja correcto tem de haver primeiro o levantamento económico, detectando bem as coordenadas de desenvolvimento material. As questões culturais e de acolhimento são também essenciais, pois não se podem mandar vir braços para trabalhar e famílias para viver, se não se podem acolher em dignidade e humanismo.

A abertura religiosa, uma vez que se acolhem pessoas com outras identidades religiosas, também é factor que virá acimentar, e muito, o relacionamento cultural e moral e dar consistência e estabilidade à própria sociedade em geral.

Voltando à situação dos brasileiros entre nós e o “bónus” que receberam dos dois Governos. Não estaremos contra esta nova visão do problema e é simpático que quem trabalha no meio de nós e não está segundo as normas, se ponha na legalidade. O mais que poderemos estar é contra o reducionismo desta abertura.

Cabo Verde também já ergueu a sua voz quando Durão Barroso visitou o seu país. Certamente que as vozes dos países lusófonos se irão erguer para reclamar o mesmo direito.

Dentro de nosso país, as vozes das associações de imigrantes também já reclamaram. Tendo isto em conta, julgo que o Governo terá de rever a sua actuação e criar uma política não sectorial (ou de privilégio), mas global, na base da justiça, da compreensão e da humanidade.




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