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Desafiar a cultura da morte

Mete-se pelos olhos dentro que o discurso da desgraça cria e adensa a desgraça – e mesmo assim os seus profetas não param”. As palavras são da escritora Inês Pedrosa e vêm na revista “Única”, do “Expresso”, a propósito do filme “O Amor É Tudo”. No filme, e ao contrário da história em que terá sido inspirado, o mal vence, o que leva a colunista a comentar com ironia: “Obra onde o mal não vença, como se sabe, não é obra inteligente”.

N/D
28 Jul 2003

É interessante e esperançoso observar estes sinais do cansaço com uma “cultura da morte” (julgo que a expressão é de João Paulo II), que frequentemente cintilam por entre obscuridades e contradições, mas que não deixam de se manifestar.
Cultivar essa cultura da morte, da depressão, do abismo, leva, com muita frequência, a destacar (quando não a enaltecer) as facetas mais escuras, esconsas e negativas da vida dos indivíduos e sociedades, deixando na sombra do esquecimento os gestos e as práticas mais radiosas e interpelativas.

Noutros tempos, impingiam-nos histórias de proveito e exemplo, com sagas de heróis e martírios de santos – histórias tantas vezes embrulhadas num espírito piegas e moralista que chegava a estragar a frescura do conteúdo embrulhado. Mas eram certamente um modo de falar e de invocar um novo horizonte possível para a prosaica vida de cada dia. Hoje, possivelmente em reacção contra o tal “embrulho” infantilizante, talvez tenhamos deitado pela borda fora não apenas o embrulho, mas também o que nele estava embrulhado.

Para não dizerem que me fico por ideias vagas, concretizo: na mesma revista do “Expresso” vem a história de “O papa léguas” que gostei muito de ler. Conta, resumidamente, o que tem sido a vida do ciclista que acaba de ganhar pela quinta vez a volta à França em bicicleta. Outros já alcançaram, no passado, esta proeza e não é por aí que quero ir. O que é tocante, no caso de Lance Armstrong, é que conseguiu estas vitórias à custa de enorme trabalho e persistência. Pelo caminho, surgiu-lhe um cancro que o deixou com os pés para a cova. Enfrentou o pesadelo e não só o superou – a ponto de voltar repetidamente ao pódio – como decidiu dedicar parte do seu tempo e do seu dinheiro à causa dos que viveram o seu drama e não têm quem os apoie. “O seu contacto com a morte deu-lhe aquela claridade de objectivos que muitas pessoas nunca conseguem encontrar entre as distracções da vida”, escreve Tony Jenks, o autor do texto.

E para terminar: tudo isto que hoje vos trago o li num jornal que, apesar dos protestos de conduta ética, tantas vezes deprime e enoja. Também isto é positivo.




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